A lata de alumínio está tão presente no universo cervejeiro que parece ter nascido junto com a bebida. No entanto, a história é bem diferente e muito mais complexa.

Neste episódio da série Cada cerveja, uma história, com o apoio da Abralatas, Ludmyla Almeida, Henrique Boaventura e Gabriel Gurian mostram que a lata é, antes de tudo, fruto de necessidades industriais, científicas e logísticas que atravessam séculos.

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Dos exércitos à indústria: o nascimento da conservação moderna

Para entender a lata, é preciso voltar ao final do século XVIII e início do XIX. Naquele momento, o desafio não era conveniência, mas sobrevivência. Sociedades em processo de urbanização, além de exércitos em campanha, precisavam de alimentos estáveis durante longos períodos, o que até então não se mostrava adequado com as técnicas disponíveis de conservação, como a fermentação, a salga, a defumação etc.

Nesse contexto, surge o trabalho de Nicolas Appert, que desenvolveu um método baseado em calor e vedação hermética. O procedimento consistia em aquecer as substâncias alimentícias e depois acondicioná-las para serem conservadas em garrafas de vidro, parecidas com as de leite, mas escuras, arrolhá-las com a ajuda de um equipamento que garantia firmeza na vedação e submergi-las em um banho-maria de duração variável a depender do alimento em questão. Estabeleciam-se, assim, os princípios da pasteurização, ou seja, da esterilização através do calor, e também do que levaria à emergência dos produtos enlatados.

Garrafas - Appert
Algumas garrafas remanescentes de Nicolas Appert

Posteriormente, a ideia evoluiu e, na Inglaterra, começou a ser aplicada em recipientes metálicos. O método que o senhor Appert propôs é excelente, escreveu Vincenzo Agnoletti, confeiteiro da nobreza de Parma, na Itália, em 1819. “E, aliás, tornou-se na França um costume doméstico corrente. […] Os ingleses aperfeiçoaram-no muito, tanto no que diz respeito à facilidade e economia, quanto à segurança da conservação dos legumes, carnes, etc.”, pois, “enquanto o senhor Appert prefere conservar tais produtos em garrafas de vidro, na Inglaterra são utilizadas latas de folha-de-flandres, cuja tampa é fixada com solda”.

Peter Durand é creditado como o primeiro a fazê-lo utilizando latas feitas do referido material, um composto de ferro e estanho.

Portanto, a lata não nasce com a cerveja. Na verdade, ela surge como solução para conservação de alimentos e só depois é adaptada para bebidas.

Antes da cerveja: as latas e os coquetéis prontos

Curiosamente, a primeira bebida a ocupar as latas não foi a cerveja. No século XIX, coquetéis prontos, o que se chama atualmente de RTDs (Ready to Drink), já eram produzidos, armazenados e vendidos em volume. Primeiro, em garrafas, com receitas em livros especializados voltadas para essa modalidade de preparo. Depois, nas últimas décadas dos 1800, em latas, conforme a urbanização e a industrialização influenciavam as alternativas nos setores de alimentos e bebidas.

RTDs - lata de alumínio

Mas por que as latas ficaram inicialmente restritas a essas bebidas, sem incluir outras, já populares, como a própria cerveja e os refrigerantes?

Havia um desafio técnico importante: a pressão. Enquanto sopas, alimentos sólidos e os drinques prontos não exigiam resistência estrutural, bebidas gaseificadas demandavam embalagens capazes de suportar pressão interna.

Por isso, embora a ideia de envasar cerveja em lata já existisse no início do século XX, foram necessários anos de testes até que a tecnologia fosse viável.

O salto tecnológico: a cerveja entra na lata

A virada aconteceu na década de 1930. quando a American Can Company conseguiu desenvolver um revestimento interno (lining), parecido com o de barris, para que as latas permanecessem intactas e viáveis para o envase de cervejas. Esse recurso impedia reações entre o metal e o líquido e resolvia, inclusive, problemas graves de intoxicação causados por materiais anteriores, como o chumbo das soldas.

Abordada pela American Can Co. em 1935, a Gottfried Krueger Brewing Company, de Newark (NJ), serviu de laboratório para o lançamento desse formato no mercado. Foi um sucesso!

Latas originais da Krueger

A partir daí, a cerveja enlatada chegou ao mercado e rapidamente ganhou espaço. Além disso, fatores como praticidade, transporte mais fácil e potencial redução de custos aceleraram sua adoção.

Entretanto, o material ainda não era o alumínio. Esse só se consolidaria no pós-Segunda Guerra Mundial, sendo introduzido de forma mais estruturada a partir de 1958, com uma versão inteiramente feita do material, que continha 12 onças líquidas, a medida “padrão” de cerca de 350 ml que conhecemos hoje.

Nesse ritmo, em 1969, as vendas de cervejas em lata haviam ultrapassado as de cervejas em garrafa nos Estados Unidos.

A chegada ao Brasil: atraso e adaptação

Embora o alumínio já fosse utilizado nos Estados Unidos desde os anos 1950, o Brasil demorou a adotar a tecnologia. A primeira lata de cerveja no país surge apenas em 1971, com a Skol, utilizando ainda folha-de-flandres, não alumínio.

Além disso, naquele momento, a lógica primordial não era sustentabilidade. Pelo contrário: a lata era vendida como descartável, uma vantagem frente às garrafas retornáveis, que exigiam logística reversa.

No entanto, o mercado não respondeu como esperado. Embora houvesse previsão de substituição total das garrafas em poucos anos, por parte dos responsáveis pela introdução das latas, isso não aconteceu. Resistência do consumidor, custos e estrutura industrial contribuíram para um processo mais lento.

E que nunca foi completado, como se percebe hoje no mercado, que ainda acomoda a cerveja e outros produtos em diferentes envases.

Somente em 1989 a lata de alumínio é implementada de fato no Brasil, consolidando o modelo que conhecemos hoje. Primeiro, pela Skol, já então líder absoluta de mercado. Mas, no mesmo ano, as outras grandes do setor, Antarctica e Brahma, acompanharam a tendência.

Skol - lata de alumínio

Também em 1989 foi inaugurada a primeira fábrica de latas de alumínio do país, em Pouso Alegre-MG.

E hoje reina o alumínio!

Por que a lata venceu?

A dominância da lata não é acaso. Pelo contrário, ela resulta de uma combinação de vantagens técnicas, logísticas e sensoriais.

Primeiramente, a lata é opaca. Isso impede a incidência de luz e reduz drasticamente o risco de “lightstruck”, o famoso aroma de “gambá” causado pela degradação de compostos do lúpulo.

Além disso, o sistema de fechamento (double seam) permite melhor controle de oxigênio, o que reduz a oxidação e preserva aromas e sabores por mais tempo. Consequentemente, a cerveja mantém sua qualidade por mais tempo na prateleira.

Do ponto de vista logístico, a lata também se destaca. Ela é mais leve, ocupa menos espaço e reduz custos de transporte. Como resultado, aumenta a eficiência da distribuição e diminui a pegada de carbono.

Por fim, há o fator sustentabilidade. No Brasil, a taxa de reciclagem das latas de alumínio ultrapassa 95%, colocando o país como referência mundial nesse aspecto.

Sem falar que as latas, hoje, no nosso país, vão muito além da cerveja, servindo de recipientes para drinques prontos, refrigerantes, sucos, vinhos, águas etc.

Muito além da embalagem

A trajetória da lata de alumínio revela algo maior do que uma simples evolução de embalagem. Ela mostra como tecnologia, ciência e mercado caminham juntos, muitas vezes impulsionados por necessidades externas, como guerras, urbanização e logística.

Ao mesmo tempo, evidencia que inovação não acontece de forma linear. A lata levou décadas para se tornar dominante, enfrentou resistência e precisou de diversos avanços técnicos até atingir o padrão atual.

Hoje, portanto, quando abrimos uma lata de cerveja, estamos lidando com o resultado de mais de dois séculos de desenvolvimento. E, embora pareça simples, cada detalhe ali, do material ao fechamento, é fruto de um longo processo de tentativa, erro e refinamento.

No fim das contas, a lata de alumínio não venceu apenas pela praticidade. Ela venceu porque resolveu problemas reais e fez isso melhor do que qualquer alternativa disponível. 🍺

Patrocínio

Este episódio conta com o apoio da Abralatas, entidade que representa um dos setores mais relevantes da indústria de bebidas no Brasil. Com mais de 34 bilhões de latas comercializadas em 2025, o país se posiciona entre os maiores mercados globais dessa embalagem. Além disso, o Brasil lidera mundialmente em reciclagem de latas de alumínio, com índices acima de 95% há mais de uma década. A atuação da Abralatas vai além dos números, promovendo inovação, sustentabilidade e avanços regulatórios em parceria com a indústria, o governo e a sociedade.

Gabriel Gurian

Historiador, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), e Pós-Doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), meus estudos são pautados por bebidas e bebedores na história do Brasil, em diferentes períodos. Atualmente faço parte do coletivo Comer História, sou pesquisador do Instituto e Estúdio Arado e colaboro com o Surra de Lúpulo.

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