O mercado cervejeiro brasileiro segue crescendo em número de fábricas, mas ao mesmo tempo revela um cenário mais competitivo e exigente. Segundo dados recentes, o Brasil já ultrapassa 1.900 cervejarias registradas, enquanto o consumo de cervejas sem álcool dispara e novas categorias ganham espaço.

Diante disso, surge uma pergunta estratégica inevitável: faz sentido continuar sendo “apenas” uma cervejaria ou é hora de se posicionar como uma indústria de bebidas?

A resposta passa por técnica, legislação, operação e, principalmente, visão de negócio.

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O que realmente muda na produção

A primeira grande diferença entre cerveja e outras bebidas está na fermentação. Enquanto a cerveja depende desse processo, grande parte das bebidas não alcoólicas – e até algumas alcoólicas mistas – são feitas apenas por mistura. Isso muda completamente o jogo.

Além disso, entram novos fatores como:

  • necessidade de pasteurização para estabilidade de prateleira
  • uso mais amplo de aditivos permitidos
  • controle mais rigoroso de carbonatação (geralmente forçada)

Ou seja, tecnicamente, produzir outras bebidas pode parecer mais simples. No entanto, operacionalmente, exige novos controles e decisões.

Surra de Lúpulo - Indústria de Bebidas

Estrutura: adaptar, separar ou sequenciar?

Ao expandir o portfólio, o maior risco é a contaminação cruzada. Por isso, existem três caminhos principais:

  1. Separação física: criar áreas ou plantas diferentes
  2. Equipamentos dedicados: tanques exclusivos para cada tipo de bebida
  3. Sequenciamento de produção: começar com bebidas de menor risco microbiológico e avançar para maior risco

Esse último é comum em estruturas menores. Por exemplo, produzir primeiro refrigerantes, depois coquetéis e, por fim, cerveja.

Além disso, é indispensável reforçar o CIP (Cleaning in Place), com protocolos mais rigorosos e validados.

O ponto crítico: glúten e contaminação

Quando diferentes bebidas compartilham equipamentos, surge um problema delicado: o glúten não sai facilmente com limpeza convencional. Portanto:

  • não basta limpar, é preciso validar processos específicos
  • análises laboratoriais devem ser frequentes, não pontuais
  • a rotulagem precisa seguir uma lógica binária: tem ou não tem glúten

Inclusive, mesmo bebidas naturalmente sem glúten podem ser classificadas como contendo glúten se houver risco de contaminação. Esse é um ponto crítico, pois envolve diretamente a segurança do consumidor.

Regulatório: MAPA, Anvisa e um sistema que se soma

Ao contrário do que muitos imaginam, a legislação não se substitui, ela se acumula. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) regula a produção e registro das bebidas, enquanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) entra em temas como rotulagem, suplementos e composição. Ou seja, ampliar o portfólio significa:

  • solicitar alteração de registro no MAPA
  • comprovar capacidade estrutural para novas bebidas
  • revisar documentação técnica (memorial descritivo, fluxogramas, layout)

Além disso, cada novo produto precisa ser registrado individualmente.

O perigo das “zonas cinzentas”

Um dos pontos mais sensíveis hoje é a adição de nutrientes. Apesar de ser tendência global, a regra é clara: não há previsão legal para adicionar nutrientes em bebidas alcoólicas. Isso cria uma zona cinzenta. Alguns produtores arriscam interpretações flexíveis, mas o risco regulatório é alto.

Já nas bebidas não alcoólicas, a adição é possível, desde que validada e estável até o fim da validade do produto.

Rotulagem: onde muitos erram

A transição para indústria de bebidas traz uma mudança significativa na rotulagem. Enquanto bebidas alcoólicas têm regras mais simples, as não alcoólicas exigem:

  • tabela nutricional obrigatória
  • rotulagem frontal (ex.: “alto em açúcar”)
  • controle rigoroso de alegações (“rico em”, “fonte de” etc.)

Portanto, o rótulo deixa de ser apenas informativo e passa a ser um elemento regulatório crítico.

Tributação: o jogo invisível

Nem sempre o produto mais fácil de produzir é o mais lucrativo. Por exemplo, refrigerantes têm alta carga tributária, e algumas categorias exigem reformulação para melhorar enquadramento fiscal.

Isso significa que decisões de portfólio precisam ser multidisciplinares, envolvendo considerações técnicas, contábeis e estratégicas.

Testar antes de investir: o caminho mais inteligente

Diante de tantas variáveis, uma recomendação se destaca: terceirizar antes de internalizar. Produzir como “cigano” permite testar aceitação do mercado, validar estabilidade do produto e reduzir risco financeiro.

Além disso, o registro fica sob responsabilidade de quem produz, facilitando a entrada no mercado.

O que separa quem cresce de quem fecha

No fim, o maior erro não é técnico nem regulatório, é estratégico!

Muitas cervejarias nascem sem planejamento, movidas apenas pela paixão. No entanto, o mercado atual exige:

  • diversificação inteligente
  • posicionamento claro
  • decisões baseadas em dados

Inclusive, a tendência é de maturidade do mercado, com possível aumento no fechamento de fábricas nos próximos anos.

Indústria de Bebidas - maturidade e gestão

Mais do que fazer cerveja

Transformar uma cervejaria em uma indústria de bebidas vai além da ampliação de portfólio. É mudança de lógica do negócio.

Por um lado, abre-se um universo de oportunidades: novos produtos, novos públicos e maior resiliência. Por outro, aumentam a complexidade, o risco e a necessidade de gestão profissional.

Portanto, a decisão não deve ser impulsiva. Ela precisa ser construída com base em estratégia, estrutura e, principalmente, clareza sobre onde se quer chegar. 🍺

Gabriel Gurian

Historiador, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), e Pós-Doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), meus estudos são pautados por bebidas e bebedores na história do Brasil, em diferentes períodos. Atualmente faço parte do coletivo Comer História, sou pesquisador do Instituto e Estúdio Arado e colaboro com o Surra de Lúpulo.

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