Celebrar seis anos – isso mesmo, SEIS! – de um podcast como o Surra de Lúpulo num programa sobre história não é apenas olhar para trás. A gente aproveita para revisitar certezas mal explicadas, frases repetidas sem crítica e ideias que o mercado cervejeiro transformou em verdade de tanto insistir nelas. Neste episódio especial, Ludmyla Almeida, Gabriel Gurian e Henrique Boaventura fazem exatamente isso: escolhem seis mitos cervejeiros bastante conhecidos e desmontam cada um deles com história, técnica e contexto.
Ao longo da conversa, fica claro que muitos desses mitos sobrevivem porque são narrativas sedutoras. Eles são fáceis de repetir, parecem fazer sentido e, além disso, ajudam a vender produtos, cursos e até uma certa aura de conhecimento. No entanto, quando se olha com mais atenção, a realidade é quase sempre mais interessante do que o bordão.
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Idade Média, água e exageros históricos
O primeiro mito abordado no episódio é um dos mais disseminados, o chamado “Grande Mito da Água Medieval”, que já havia sido discutido por muitos medievalistas e depois influenciou considerações de Martyn Cornell, historiador britânico de primeira, que dedicou a vida ao estudo das cervejas.
Fala-se que, na Idade Média, as pessoas não bebiam água porque ela seria imprópria para consumo e, por isso, bebiam – bastante – cerveja. Gabriel explica que essa leitura não se sustenta. Primeiramente, água é e sempre foi essencial à vida. Havia acesso a ela por rios, córregos, chuva e poços, e as populações medievais não eram incapazes de avaliar minimamente o que consumiam, através da aparência e do odor. Além disso, práticas de asseio e limpeza existiam e tinham importância social; não era um período de “gente imunda.”

Alguma desconfiança em relação à água não vinha simplesmente de sujeira ou contaminação, mas de visões médicas e culturais da época, como a Teoria dos Humores. Bebida em abundância, por ser considerada uma substância de temperamento frio, a água poderia provocar, como se acreditava, uma reação adversa no organismo. Vinho ou cerveja, de natureza quente, às vezes seriam preferíveis em determinados momentos do dia, como durante as refeições, inclusive por serem nutritivos e vistos como alimentos.
Mas não se tratava de banimento total do consumo de água! Tudo era uma questão de equilíbrio.
Ou seja, esse mito é um grande embuste.
A água certa para o estilo certo?
Na sequência, o episódio revisita outro mantra clássico: o de que determinadas águas seriam naturalmente ideais para certos estilos de cerveja. Henrique reconhece que, historicamente, isso teve fundamento. Perfis minerais específicos, como os de Pilsen e Burton-on-Trent, influenciaram o desenvolvimento de estilos e facilitaram certas produções.

Só que esse raciocínio não pode ser transplantado intacto para 2026. Com osmose reversa, correções minerais e outras tecnologias, a água deixou de ser uma limitação geográfica rígida. Hoje, ela é uma variável controlável. Assim, o que antes era condicionante histórica virou, em grande parte, questão de processo.
A série sobre águas no Brassagem Forte, com a Gabriela Lando, é muito esclarecedora sobre esse assunto!
Os estereótipos das bruxas não vêm das alewives
O terceiro mito talvez seja um dos mais populares nas redes: a ideia de que a iconografia das bruxas nasceu diretamente das mulheres cervejeiras, que foram perseguidas e banidas dessas posições.
O episódio faz uma distinção importante. Sim, houve apagamento feminino na história da cerveja à medida que a produção saiu do ambiente doméstico e passou a ser profissionalizada e dominada por homens. Mas não, isso não significa que chapéu pontudo, gato, vassoura e caldeirão tenham surgido diretamente daí.
Entre alguns pontos incongruentes, está o fato de que o declínio da produção cervejeira doméstica feminina antecedeu em mais de 100 anos o frenesi e os “julgamentos de bruxas” no Reino Unido que supostamente teriam motivado acusações de bruxaria contra cervejeiras.
O chapéu que alegadamente teria dado origem a essa associação vem de uma imagem de 1672; era um tipo muito comum à época, chamado de “capotain”, e usado tanto por homens e mulheres. Ele aparece sempre em representações da época da rainha Elizabeth I, no século XVI, e em imagens dos primeiros colonos puritanos da América do Norte.

Gabriel mostra que essa construção iconográfica das bruxas é posterior e muito mais complexa, reunindo camadas de misoginia, preconceitos religiosos, imaginário popular e outros processos históricos. Portanto, a questão imagética não dá conta do problema da exclusão feminina do fazer cervejeiro na Época Moderna.
Esse tópico em particular conta com dois ótimos textos online, em inglês:
- Cristina Wade. Nope, Medieval Alewives Aren’t The Archetype For The Modern Pop Culture Witch, 2017.
- James Brown. Trouble Brewing: Ale, Beer, and Witchcraft, 2021.
IPA: menos lenda, mais contexto
A conversa também desmonta a velha explicação de que a IPA foi criada especificamente para suportar as longas viagens até a Índia. O episódio mostra que cervejas mais alcoólicas e mais lupuladas já eram conhecidas por sua maior durabilidade. Nesse sentido, a IPA não surge como uma invenção isolada e genial voltada unicamente para esse trajeto, mas como uma adaptação de algo já existente, respondendo a uma lógica comercial mais ampla.
Em fins do século XVIII, cervejas já existentes, as chamadas de October Ales, outonais, fortes e maturadas, passaram a ser enviadas sem essa maturação na “Carreira da Índia”; assim, elas se beneficiavam do tempo embarcadas, em vez de estragarem, como acontecia com tantos outros tipos despachados além-mar.

Além disso, a reputação e o apreço do estilo cresceram muito no mercado interno britânico. Depois, com a revalorização da IPA no movimento craft, essa história foi sendo simplificada e romantizada num “mito de origem” excepcional.
Bohemia não foi a primeira cervejaria do Brasil
Outro mito clássico é o de que a Bohemia teria sido a primeira cervejaria do Brasil. No episódio, Gabriel corrige essa frase: a Bohemia é a mais antiga em operação contínua, o que é diferente de ser a primeira. A distinção não é nada pequena.
As notícias de operações anteriores a 1853 são várias. E a própria Bohemia foi fundada em Petrópolis como filial de outra cervejaria que já existia havia pelo menos 5 anos na cidade do Rio de Janeiro.
Mais uma vez, o marketing ajudou a consolidar uma versão mais simples, memorável e comercialmente útil. Mas que é, no fim das contas, falsa!

Puro malte não é atestado automático de qualidade
O sexto mito fecha o episódio num ponto especialmente sensível do mercado brasileiro: a crença de que cerveja puro malte é necessariamente melhor. O trio explica que essa ideia cresceu a partir de uma combinação de lacuna regulatória, limites para o uso de cereais não maltados, benefício fiscal para cervejas feitas apenas com malte de cevada e, principalmente, propaganda.
Ou seja, foi uma falsa verdade técnica que virou slogan e que hoje se retroalimenta de legitimação pelo próprio slogan criado.

Henrique reforça que adjuntos como milho e arroz não são, por definição, sinal de produto inferior. Em muitos casos, eles cumprem papel técnico, ajudam no processo, equilibram receita e podem até tornar a produção mais complexa, e não mais simples. O uso de adjuntos aparece em tradições cervejeiras diversas, inclusive em contextos históricos respeitados, como o da Escola Alemã.
Portanto, reduzir qualidade à presença da expressão “puro malte” é uma simplificação pobre.
O que esse aniversário realmente celebra
No fim das contas, o episódio comemorativo de seis anos do Surra de Lúpulo celebra, sim, a longevidade do podcast, mas não só. Também celebra uma postura: a disposição de questionar o que parece óbvio, revisar narrativas repetidas e tratar a cultura cervejeira com mais seriedade, inclusive do ponto de vista histórico.
Porque, nesse universo, bons causos e os mitos cervejeiros sempre terão seu charme. Ainda assim, quando o causo vira dogma, ele empobrece o debate. E é justamente contra esse empobrecimento que esse episódio – aliás, o podcast como um todo – trabalha, mito por mito, gole por gole. 🍻