O turismo cervejeiro deixou de ser apenas um “extra simpático” para cervejarias e, cada vez mais, se posiciona como um caminho estratégico para geração de receita, fortalecimento de marca e desenvolvimento regional. No entanto, como fica claro na conversa entre Ludmyla Almeida e Ana Cláudia Pampillón para o Surra de Lúpulo, transformar uma cervejaria em destino turístico exige muito mais do que abrir as portas e oferecer uma degustação.
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Muito além da cerveja: o produto é a experiência
Tradicionalmente, a cervejaria enxerga seu produto como algo que vai para a prateleira do supermercado. Entretanto, ao entrar no universo do turismo, surge uma mudança fundamental de lógica: o produto passa a ser a experiência.
Esse deslocamento não é trivial. Por um lado, exige que o empresário compreenda que há valor econômico em tudo o que acontece dentro da cervejaria. Por outro, demanda planejamento, narrativa e estrutura. Portanto, não basta improvisar um tour. É necessário desenhar uma jornada para o visitante, considerando desde o primeiro contato até o momento da compra final.

Além disso, a experiência precisa ser memorável. Caso contrário, ela não gera recorrência. E, como destacado no papo, vender pela segunda vez para o mesmo visitante é o verdadeiro desafio.
Turismo cervejeiro como pilar financeiro — mas com método
Diante de margens apertadas, alta carga tributária e dificuldades de distribuição, o turismo surge como uma alternativa relevante. No entanto, tratá-lo como um pilar financeiro exige disciplina.
Primeiramente, é preciso estruturar o produto turístico. Isso inclui roteiro, atendimento, narrativa e, sobretudo, precificação. Afinal, o turismo envolve uma cadeia mais ampla: guias, agências, transporte e outros intermediários também precisam ser remunerados.

Nesse sentido, iniciativas de capacitação, como as promovidas com apoio do SEBRAE, mostram-se decisivas. Elas ajudam as cervejarias a entender que o jogo mudou. Ou seja, não se trata apenas de vender cerveja, mas de operar dentro da lógica do turismo.
O gargalo invisível: quem vende o turismo
Um dos pontos mais estratégicos levantados é frequentemente ignorado: é preciso, além de preparar a cervejaria, preparar quem vende o destino.
No Brasil, muitas agências são emissivas, focadas em vender viagens para fora, e não em estruturar receptivos locais. Consequentemente, há uma lacuna na capacidade de transformar o turismo cervejeiro em produto comercial escalável.
Por isso, capacitar guias, operadores e agências é tão importante quanto estruturar a experiência dentro da cervejaria. Quando esse elo falha, o fluxo de visitantes não se sustenta.
Experiência que engaja vende mais
O turismo cervejeiro ganha força quando abandona o básico e investe em diferenciação. Degustações e visitas técnicas são importantes, mas não suficientes.
Exemplos práticos mostram o caminho:
- experiências com balão ao nascer ou pôr do sol combinadas com cerveja;
- piqueniques em plantações de lúpulo;
- hospedagens temáticas com chopeiras nos quartos;
- integração com outros atrativos turísticos, como flores e gastronomia.
Essas iniciativas funcionam porque criam conexão emocional. E, como consequência, aumentam o ticket médio. Afinal, quando a experiência é marcante, a compra deixa de ser racional e passa a ser afetiva.

Associativismo: competir menos, construir mais
Outro ponto crítico é o papel do associativismo. Embora cervejarias sejam, em tese, concorrentes, a construção coletiva fortalece todo o ecossistema.
Na prática, os ganhos são claros:
- maior visibilidade ao comunicar um destino coletivo
- compartilhamento de conhecimento e recursos
- criação de produtos integrados
- suporte em momentos de crise
Além disso, a cooperação permite incluir desde grandes players até pequenas cervejarias, ampliando o alcance e a diversidade da oferta.

O papel (ainda frágil) do poder público
Apesar do potencial econômico, o turismo cervejeiro ainda não ocupa o espaço que poderia nas políticas públicas.
O principal problema não é a ausência total de apoio, mas a descontinuidade. A cada mudança de governo, projetos precisam ser reapresentados, o que gera desgaste e perda de ritmo.
Ainda assim, há caminhos claros:
- inclusão do turismo cervejeiro em campanhas oficiais
- presença em feiras nacionais e internacionais
- sinalização turística (placas, mapas, rotas)
- uso de dados e pesquisas para embasar decisões
Sem esse suporte institucional, o crescimento tende a ser mais lento e fragmentado.
Um caminho longo, mas inevitável
O turismo cervejeiro no Brasil ainda está em construção. No entanto, os sinais são claros: quando bem estruturado, ele gera valor para toda a cadeia.
Portanto, o desafio não é provar que funciona, mas acelerar sua maturidade. Isso passa por três frentes principais: profissionalização das cervejarias, capacitação dos intermediários e articulação com o poder público.
Enquanto isso, quem sair na frente, estruturando experiências reais e não apenas visitas, tende a capturar uma vantagem competitiva difícil de replicar. 🍺