Se tem uma cervejaria que desafiou o tempo e sobreviveu a diversas adversidades, essa é a Anchor Brewing. Uma das pioneiras na construção da identidade cervejeira americana, a Anchor teve que ser salva repetidamente ao longo de sua história. Mas mais do que isso, ela foi fundamental na criação de um estilo que se tornaria um ícone da cultura cervejeira dos Estados Unidos: a Steam Beer.
Antes, porém, de falarmos sobre os momentos turbulentos e os salvadores dessa icônica companhia, vamos voltar no tempo, para o século XIX, e entender como tudo começou…
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Origens da Anchor Brewing: a corrida do ouro e a transplantação de tradições cervejeiras
A história da Anchor Brewing está profundamente ligada à Gold Rush, a febre, a corrida do ouro na Califórnia, um momento muito impactante nos Estados Unidos do século XIX, especialmente no contexto da chamada “Marcha para o Oeste”. Entre 1848 e 1855, a promessa de riquezas atraiu cerca de 300 mil pessoas para a região, transformando centros urbanos como São Francisco em pontos efervescentes de comércio, negócios e, claro, cerveja.
Entre esses aventureiros estavam muitos imigrantes alemães, tradicionalmente conhecidos por sua cultura cervejeira. Gente que, por isso, trouxe consigo suas próprias receitas, leveduras e métodos de produção, tentando reproduzir as tradicionais lagers em um ambiente completamente novo.
A falta de gelo e a criatividade: nasce a Steam Beer
Diferente da Europa, onde a fermentação lager acontecia em temperaturas baixas controladas, em ambientes que contavam com suprimentos de gelo natural ou refrigeração artificial, a Califórnia oferecia um cenário desafiador: calor acentuado e escassez de qualquer recurso resfriador, da natureza ou através de algum maquinário. Na época, gelo era um artigo de luxo, caro e restrito aos refrescos das elites e às indústrias dos grandes centros da Costa Leste. Assim, como resolver esse problema?
A resposta foi a adaptação. Os cervejeiros alemães começaram a produzir uma cerveja híbrida, utilizando leveduras de baixa fermentação (lager), mas em temperaturas mais altas, semelhantes às utilizadas em ales. Esse processo único gerava uma cerveja com características peculiares: corpo mais leve, alta carbonatação e um toque rústico que a diferenciava das demais.
Foi assim, com a contribuição de dezenas de cervejarias da área de São Francisco, que nasceu o estilo que mais tarde ficaria conhecido como Steam Beer, ou California Common.
O vapor e o mar
A produção de Steam Beer, desenvolvida em meio às dificuldades de resfriamento da cerveja na Califórnia, diferindo da praticada por cervejarias belgas, por exemplo, que utilizavam tanques abertos (coolships) para incentivar fermentações espontâneas, precisava encontrar uma maneira de resfriar o mosto de uma receita de tipo lager sem dispor de gelo.
Assim, no caso da Anchor, o ambiente complicador, a Califórnia, também foi o solucionador. Os cervejeiros começaram a bombear a mistura quente para tanques nos andares superiores da fábrica e abrir as janelas, aproveitando a brisa marítima fria e nevoenta da Baía de São Francisco, que conduzia esse resfriamento durante a noite. O choque térmico resultante devia acentuar o vapor dos tanques, que saía visível pelas janelas, o que pode ter sido uma das origens do nome Steam Beer.
A questão dessa nomenclatura, no entanto, não é consensual. Nem mesmo David Burkhart, historiador contratado para pesquisar e escrever uma história “oficial” da cervejaria, publicada em 2022, aposta numa explicação definitiva, elencando 4 hipóteses possíveis – e deixando de fora uma outra bastante válida, que também é contemplada por Ludmyla, Henrique e Gabriel no episódio.
Gottlieb Brekle e os anos pré-Anchor Brewing
Dentre os imigrantes alemães que se estabeleceram em São Francisco, um nome se destacou: Gottlieb Brekle. Ele chegou aos Estados Unidos em 1852, no meio daquela febre do ouro, acompanhado de sua família. Como muitos outros imigrantes, na busca por inserção no novo país, adotou em seu cotidiano um nome mais fácil para os americanos: George.
Quase vinte anos depois, em 1871, George comprou um salão de cerveja e bilhar, daqueles típicos estabelecimentos quando pensamos no “Velho Oeste”, com suas portas de vaivém, escarradeiras no chão ao lado balcão e torneiras de chope. Uma compra pensada para transformá-lo em algo novo: uma cervejaria!
Pouco depois, sob a batuta de Brekle, surgiu a Golden City Brauerei, que, décadas mais tarde, daria origem à Anchor Brewing.
Da Golden City à icônica Anchor
A Golden City Brauerei era uma cervejaria pequena, operando em uma cidade que já tinha uma cena cervejeira bem movimentada. Em 1874, apenas três anos após a abertura do novo negócio de Brekle, São Francisco já contava com 34 cervejarias registradas, num cenário cuja população estimada seria entre 150 mil e 180 mil habitantes. Ou seja, havia concorrência e muitas opções ao público.
Mesmo assim, a Golden City conseguiu sobreviver, apesar de ocupar a modesta 29ª posição entre as cervejarias locais em volume de vendas, segundo jornais da época. E foi essa pequena brauerei que, anos depois, em 1896, se transformaria na inconfundível brewery que conhecemos hoje.
Ao ser comprada por outros dois imigrantes germânicos, Ernst F. Baruth, em sociedade com o seu genro, Otto Schinkel, Jr., ela, finalmente, foi rebatizada como Anchor Brewing, marcando um ponto de virada nessa que, até hoje, é uma cervejaria icônica na história estadunidense.
Vale dizer que, assim como as Steam Beers, é incerta a razão por trás do nome Anchor, de maneira que só podemos supor ter alguma relação com o porto e a Baía de São Francisco, tão importantes para a produção cervejeira do lugar. ⚓
A cervejaria das sete vidas
Ao longo de sua história, a Anchor passou por vários altos e baixos e enfrentou muitos desafios. Essa trajetória pode ser resumida em quatro fases, marcadas por diferentes proprietários e alguns desastres – de terremotos a incêndios 🔥 – que impactaram diretamente a continuidade da cervejaria.
1ª fase: 1896-1907, da “fudação” ao grande terremoto
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Ernst F. Baruth faleceu em fevereiro de 1906.
- Incêndios que seguiram um terremoto de altíssima magnitude destruíram a primeira sede da Anchor, resultando na perda de documentos e objetos importantes.
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Interrompe-se a construção da nova sede, pós-desastre, em 1907, em função da morte de Otto Schinkel, Jr., tragicamente atropelado por um bonde, aos 37 anos.
2ª fase: 1907-1920, novos donos e a Lei Seca
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A cervejaria foi vendida e continuou administrada por cervejeiros germânicos, Joseph Kraus e August Meyer, junto ao comerciante Henry Tietjen.
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Manteve suas atividades até o início da Lei Seca (Prohibition) em 1920.
✳ Interim (1920-1933): não há registros de atividades legais ou ilegais da Anchor nesse período.
3ª fase: 1933-1959, resiliência e o primeiro proprietário estadunidense
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Joseph Kraus reabriu a cervejaria com o fim da Lei Seca, reintroduzindo as Steam Beers.
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Em 1934, a nova sede foi destruída por mais um incêndio; sem se abater, no entanto, Kraus reabriu o empreendimento em outro local.
- Ainda nos anos 1930, a Anchor passou a contar com seu primeiro proprietário estadunidense, Joe Allen, ao lado de Kraus.
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Em 1952, Kraus faleceu e, em 1959, os rótulos de produção em massa inviabilizaram os negócios da cervejaria naquelas condições, que foi encerrada por Allen, então com 71 anos.
4ª fase: 1960-1979, à beira do abismo e a volta por cima sob Fritz Maytag
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Numa reviravolta a favor da continuidade da Anchor, Lawrence Steese comprou a cervejaria e tentou mantê-la funcionando, mas também enfrentou dificuldades financeiras.
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Até que, em 1965, Frederick Louis “Fritz” Maytag adquiriu 51% da operação e deu início a um meticuloso processo de recuperação da Anchor.
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Maytag se tornou o único proprietário em 1969, e continuou a “pôr ordem na casa”, preparando terreno para o futuro.
A Revolução da Cerveja Artesanal: como a Anchor impulsionou o movimento Craft Beer
A partir de 1979, onde marcaríamos o início da 5ª fase dessa trajetória, que chega até os dias atuais, a Anchor consolidou seu papel como a primeira cervejaria artesanal dos EUA. Esse movimento só foi possível com a legalização de forma ampla do homebrewing no país pelo presidente Jimmy Carter em 1978. Medida que incentivou uma nova e potente geração de cervejeiros artesanais.
Posteriormente, a Anchor seguiu inovando, ao abrir sua própria microdestilaria em 1993, sendo pioneira na produção de destilados dentro de uma cervejaria.
No entanto, como muitas artesanais bem-sucedidas, ela eventualmente acabou agregada a conglomerados empresariais maiores. Em 2010, Fritz Maytag decidiu pendurar as chuteiras e vendeu a Anchor para empresários da Califórnia, ligados à marca de vodka SKYY. Já em 2017, a japonesa Sapporo assumiu o controle.
De forma chocante, em 2023, enfrentando desafios financeiros e os impactos da pandemia de COVID-19, a Sapporo decidiu encerrar a operação da Anchor. Felizmente, a marca foi adquirida por um novo investidor, o CEO da marca de iogurtes Chobani, e há planos para sua reabertura.

Cervejas icônicas da Anchor Brewing
A Anchor criou ou ajudou a popularizar algumas das cervejas mais marcantes dos EUA, incluindo:
- Anchor Steam (4.8% ABV) – A original California Common.
- Liberty Ale (5.9% ABV) – A primeira American IPA.
- Anchor Porter (5.6% ABV) – Uma robusta American Porter.
- Old Foghorn (8.0% ABV) – A primeira American Barleywine.
- Anchor California Lager (4.9% ABV) – Uma lager tradicional.
- Anchor IPA (6.5% ABV) – Uma homenagem ao estilo que ajudou a popularizar.
Conclusão: o legado da Anchor Brewing e o futuro do movimento Craft Beer
A Anchor não apenas sobreviveu a incêndios, crises econômicas e mudanças de proprietários, mas também ajudou a moldar o movimento de cerveja artesanal nos Estados Unidos. Sua Steam Beer – que hoje é marca registrada e exclusiva, aliás – se tornou um ícone da identidade cervejeira americana, e sua influência pode ser vista até o presente, em diversas microcervejarias ao redor do mundo.
Mesmo após seu fechamento temporário em 2023, há esperança de que a Anchor retorne com força, preservando sua tradição e contribuindo para a evolução do mercado cervejeiro. Enquanto isso, suas criações, como a Liberty Ale e a Old Foghorn, seguem como referências para cervejeiros e apreciadores.
Se você é fã de cerveja artesanal e quer entender mais sobre a história e os estilos que moldaram o mercado, continue acompanhando nosso blog para mais conteúdos sobre esse universo tão fascinante! 🍻