De “modinha”, a cerveja sem álcool não tem nada

Falar em cerveja sem álcool ainda provoca reações curiosas. Para muita gente, ela seria uma invenção recente, criada para atender uma tendência passageira de moderação. No entanto, a história mostra justamente o contrário. Neste novo episódio da série Cada cerveja, uma história, Ludmyla Almeida, Henrique Boaventura e Gabriel Gurian destrincharam como a relação entre cerveja, moderação e baixo teor alcoólico acompanha a humanidade há séculos.

Antes de tudo, vale lembrar que o álcool sempre ocupou lugares diferentes nas sociedades. Ele já foi alimento, símbolo religioso, estimulante social e também alvo de preocupações médicas e morais. Por isso, a ideia de produzir bebidas com menos álcool não surgiu agora. Ela apareceu sempre que diferentes públicos, ocasiões e necessidades pediram alternativas mais leves.

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Moderação, medicina e um passado muito mais complexo

Ao longo da Antiguidade, da Idade Média e da Época Moderna, a cerveja fez parte da alimentação cotidiana de muita gente. Em vários contextos, ela era consumida durante jornadas de trabalho, em refeições familiares e até em situações de convalescença. Portanto, não fazia sentido imaginar que todas as cervejas fossem fortes. Havia espaço para bebidas mais leves, com menor teor alcoólico, capazes de cumprir funções práticas e nutricionais sem comprometer tanto a rotina.

Além disso, a literatura médica dos séculos XVII, XVIII e XIX tratava o consumo moderado como chave para a saúde. Havia discussões sobre quais bebidas seriam mais adequadas para determinados corpos, climas, profissões e estados de saúde. Nesse cenário, cervejas “fortes” e “fracas” coexistiam. Gabriel cita, por exemplo, uma tabela publicada no Brasil em 1842 pelo doutor Pedro Chernoviz que já mostrava cervejas inglesas acima de 7% e várias outras abaixo de 4%, vindas de diferentes países europeus.

Henrique faz uma observação importante: quando se falava em cervejas fracas e fortes naquele período, a diferença não era apenas alcoólica. Os métodos de fermentação ainda eram menos refinados e, assim, essas bebidas também preservavam diferentes quantidades de açúcares residuais e outros compostos do mosto. Ou seja, o universo cervejeiro já era mais diverso do que muitas simplificações atuais deixam transparecer.

Small beer: a cerveja leve do dia a dia

Se existe um elo histórico claro entre o passado e a atual cerveja zero álcool, ele passa pelas chamadas small beers ou table beers. Essas cervejas de baixo teor alcoólico eram produzidas com mostos menos concentrados ou a partir da relavagem de mostos já usados em cervejas mais robustas. Desse modo, surgiam bebidas mais baratas, mais leves e muito presentes no cotidiano.

Elas eram consumidas por trabalhadores, famílias, frequentadores de tavernas e, em muitos registros, até por crianças. Sim, isso hoje soa estranho, mas fazia parte de outra lógica histórica de alimentação e de saúde. Além disso, as small beers eram vistas, em certos contextos, como alternativas mais “morais” do que destilados. Não por acaso, a oposição entre cerveja e bebidas fortes aparece de forma icônica nas gravuras Beer Street e Gin Lane, de William Hogarth.

Outro ponto importante levantado no episódio é o combate a um mito persistente: a ideia de que se bebia cerveja porque a água era geralmente imprópria para consumo. Essa explicação distorce demais a história. Na prática, a popularidade dessas cervejas leves tinha mais relação com cultura alimentar, custo, disponibilidade e adequação à vida cotidiana.

Da fermentação interrompida à tecnologia contemporânea

Já no século XIX, a intenção explícita de produzir cerveja sem álcool ficou mais evidente. Entretanto, os métodos ainda eram limitados. Uma das rotas mais comuns era a fermentação abreviada ou interrompida, que reduzia a produção de álcool, mas deixava na bebida muito açúcar residual e um perfil sensorial frequentemente desequilibrado.

Depois, no século XX, especialmente com a Lei Seca nos Estados Unidos, ganharam espaço as near beers, cervejas com até 0,5% de álcool que escapavam das restrições legais. Em geral, elas eram produzidas a partir de mostos de baixa densidade e, em seguida, fervidas para evaporar o álcool restante. O problema é que esse processo também levava embora compostos aromáticos importantes e acelerava a oxidação.

A partir da segunda metade do século XX, a tecnologia começou a mudar esse jogo. Surgiram alternativas como destilação a vácuo, osmose reversa e filtragem por membranas. Ainda assim, todas traziam perdas sensoriais relevantes. Hoje, porém, um dos caminhos mais promissores está no uso de leveduras com capacidade limitada de consumir açúcares fermentescíveis. Dessa forma, a fermentação acontece até o fim do seu ciclo, mas gera pouco álcool, menos “defeitos” e aspectos sensoriais desagradáveis. Como resultado, a qualidade das cervejas sem álcool modernas cresceu muito!

Um mercado em expansão, com raízes profundas

O cenário contemporâneo só reforça essa continuidade histórica. Grandes marcas, como Heineken, Guinness e Corona, investem pesado na categoria. Ao mesmo tempo, produtoras especializadas e projetos brasileiros como Sim Cerveja, Lucy, Etappa e Seven Days mostram que há espaço para propostas diversas, inclusive de low-ABV, isto é, baixo teor alcoólico.

Mais do que uma substituição da cerveja alcoólica, o que se desenha é uma convivência entre estilos, ocasiões e perfis de consumo. Inclusive, a cerveja sem álcool pode funcionar como porta de entrada para novos públicos conhecerem o universo cervejeiro craft, com seus tipos e sabores diferentes. Portanto, tratá-la como frivolidade ou delírio de mercado é ignorar tanto a história quanto o presente.

O passado ajuda a enxergar melhor o copo de hoje

A história da cerveja sem álcool deixa uma lição clara: ela não nasceu ontem, nem apareceu por capricho. Pelo contrário, é resultado de séculos de debates sobre moderação, saúde, técnica, consumo e diversidade de públicos. Se hoje a categoria vive um boom, isso acontece porque a tecnologia finalmente se aproximou de uma demanda antiga.

Em outras palavras, a cerveja sem álcool não é uma ameaça à cerveja “de verdade”. Ela é, na verdade, mais um capítulo da própria história da cerveja. E, ao que tudo indica, esse capítulo ainda está longe de acabar. 🍺

Gabriel Gurian

Historiador, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), meus estudos são pautados por bebidas e bebedores na história do Brasil, em diferentes períodos. Atualmente integro o projeto Comer História, desenvolvo pesquisa pós-doutoral na Universidade de São Paulo (USP), com foco no nascimento da cultura cervejeira brasileira no século XIX, e colaboro com o Surra de Lúpulo.

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