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História da cerveja na América do Sul com Comer História

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No programa de hoje, convidamos o pessoal do Comer História para falar sobre a história da cerveja na América do Sul e, claro, no nosso país, Brasil. Estamos aqui com Gabriel Ferreira Gurian e Rafael Afonso Gonçalves. Ouça na íntegra:

 

 

✨ Esse programa não aconteceria sem os nosso Mecenas Empresariais: ✨ Cerveja da CasaIris PayCervejaria UçáViveiro Van de Bergen, The Beer Agency, Prussia Bier e Passaporte Cervejeiro.

 

História da cerveja na América do Sul

 

A história da América do Sul não começa na colonização, então a gente vai dar alguns passos atrás e falar sobre as bebidas ancestrais dos povos originários que aqui habitavam como um todo. Quais bebidas eram essas e quais informações e histórias nós temos sobre elas? 

 

Mapa antigo da américa do sul“A gente está falando aqui de um continente inteiro com uma pluralidade cultural avassaladora, né? Mas acho que a gente consegue entender um pouco dessa pluralidade de uma forma mais sistematizada. Para a gente entender de uma forma sintetizada. A importância da fermentação na natureza e a importância da fermentação para vários agrupamentos humanos ao longo, inclusive da pré-história. A fermentação acontece na natureza por esses micro-organismos que a gente conhece, bactérias e leveduras. É através da fermentação, da saccharomice e cervícia que a gente obtém a cerveja. Mas ela é um processo que na natureza beneficia uma cadeia muito grande de seres vivos e que ela pode ser observada em diferentes contextos por diferentes culturas. Então é muito seguro a gente falar. que praticamente toda cultura do mundo tem uma bebida sua, ou tem algum alimento fermentado, porque além do álcool ser essa coisa deleitosa que a gente tem, essa coisa báquica que eles dizem, né, essa embriaguez que a gente gosta tanto, ele também é uma fonte energética importante, é claro que se você consumir muito álcool aí a equação se inverte, né, você vai estar tendo que gastar mais energia do que você consome, mas a fermentação… Por outras maneiras, também ela simplifica nutrientes. Então você consegue acessar nutrientes de alimentos que, em natura, puros, sem essa transformação você não conseguiria. Então, quer dizer, alimentos fermentados são muito importantes e os alimentos fermentáveis são muito dispersos pelo mundo. Então você tem… invariavelmente, praticamente todas essas culturas, não só do continente americano, alguma forma de bebida fermentada. E o que aí a gente vai ter muita diferença são os lugares culturais, lugares simbólicos que essas bebidas vão ter em cada sociedade. E isso é uma coisa super importante da gente prestar atenção também nessas sociedades pré-colombianas, nessas sociedades autóctones, ancestrais, porque às vezes a gente pensa muito na nossa forma de beber ou nas nossas formas de fazer as coisas de forma geral. O mundo é muito mais cheio de possibilidades, né? E aí a gente olhando pra esse passado, inclusive esse passado americano, dessa América antes dela ser chamada de América, é super rico. A gente não tem aqui informações, né? Nós somos meros historiadores, meras pessoas. Não dá pra gente conseguir sistematizar um grande catálogo do tanto de bebida que… Esses povos já fizeram. O que a gente sabe é que o milho teve uma preponderância alimentar muito grande para muitas culturas. E a gente pode inclusive falar sobre a história do milho já já, porque ela é um insumo importante para N bebidas e também para cerveja. Mas se a gente olhar para o Brasil… como uma pequena amostra para a gente pensar o que é possível ao longo de todo o continente, tem uma citação muito interessante de um jesuíto, e aqui a gente está usando um texto de um europeu falando dessas coisas, porque o texto também é uma forma mais tradicional para nós historiadores, para a gente acessar esse passado. Mas é claro que arqueologia, arqueogenética, são coisas super importantes que a gente também leva em consideração. Mas tem uma citação desse jesuíto, que é o Simão de Vasconcelos, em meados do século XVII, que ele vai dizer assim, Parecia muito que um deus baco, ele fala um deus baco, não o deus baco, mas alguma divindade que fosse ligada a essas bebidas, tivesse passado pelo Brasil e ensinado todos os povos a fazer uma porção de vinhos, porque fermentava-se absolutamente qualquer coisa. E diz ele que ele contou 32 variedades de bebidas fermentadas a partir de alimentos nativos do Brasil. Em algumas pesquisas específicas, assim, você consegue mapear num local 21 que aparecem nesses registros desses europeus, mas tem um monte de coisa que essas pessoas, esses testemunhos brancos não deram conta de mapear, com certeza, né? A tendência é, fermentou, deu jogo, você colocava pra jogo, né? E colocava-se também em sumos misturados, era raiz com fruta, potencializado com mel pra fermentar. Então, eu acho que a síntese é… fazia-se muita coisa com tudo que tinha à mão. E aí a gente tem que olhar pra cada cultura, pra cada sociedade, pra ver também essa pluralidade de lugares simbólicos que essas bebidas tiveram pra cada um.”

 

Rafael complementa:

 

Indígenas no Brasil Colonial“É extremamente interessante, que são as nossas formas de classificação e como a gente usa isso para, de algum modo, incorporar algo desconhecido dentro de algo que já é conhecido para a gente. Então, é muito interessante a gente ter essa consciência que a gente faz isso ao mesmo tempo, que a gente não consegue deixar de fazer para variar dos campos do nosso saber, inclusive o de alimentação. A gente acaba agrupando isso. E se pensar o Brasil como… Esse lugar imenso, cheio de biomas, com diferentes frutas, diferentes tipos vegetais, animais, enfim. E pensar que de misturas e misturas se faziam compostos completamente diferentes, isso é muito interessante. Enfim, tem essa classificação que a gente pode pensar, os fermentados, que a gente usa hoje, os fermentados cereais, chamados de cervejas, aqueles de frutas, chamados de… Vinho, né? Que é um tipo de classificação que também tem a sua historicidade. Quer dizer, quando a gente olha para essas fontes escritas, então, né? Desses europeus escrevendo sobre esses povos, a gente já encontra esses termos. Por exemplo, né? Nessas fontes que a gente encontra, eles falam muito do termo vinho. Vinho, inclusive, para qualquer outra fruta. Então, fermentados de, sei lá, de abacaxi, sei lá, jabuticaba e outras frutas, a gente vai… Quando eles designam isso, eles chamam isso de vinho. E isso da terminologia é muito interessante, porque durante muito tempo a gente chamou isso de vinho. Durante a colonização, o império, durante toda a república, quando a gente começou até no Brasil já independente, normatizar isso em termos de direito, como que a gente chama isso, estava na legislação lá que a gente poderia chamar, por exemplo, um fermentado de caju, de vinho de caju, ou um fermentado de laranja, de vinho de laranja. Isso só foi mudar muito recentemente, em 1988, com a Constituição Cidadã, na verdade, que nos rótulos a gente não pode mais chamar algum fermentado de qualquer fruta de vinho D, mas até então a gente poderia chamar. E aí, tanto que o pessoal que produz isso tem uma grande dificuldade de como eu vou chamar isso e tal, o que nos remete também nessa dificuldade de utilizar nomes adequados para cada uma dessas bebidas. Quando a gente fala de bebidas específicas, hoje a gente tem a tendência a utilizar a terminologia que aqueles povos utilizavam. Então, por exemplo, tem um tipo de bebida ritual que é produzida pelos Kaigang, Kaigang é uma etnia que está aqui no Sudeste, Paraná, São Paulo, Santa Catarina, que eles chamam de Kiki. Então, aí, para especificar, que utiliza mel e tudo mais, para às vezes designar essa específica, a gente pode utilizar o vocabulário que eles utilizam, mas é super complicado, é super específico, né? Então, por isso, às vezes a gente coloca essas bebidas dentro dessas grandes classificações, porque nos ajuda a entender. Isso também, mas é uma discussão super interessante que tem a ver com a nossa própria concepção dessas bebidas, afinal, o que é, quais são as suas especificidades, mas isso se dá, mais uma vez, diante da grande diversidade de bebidas que existiram. Algumas a gente consegue saber porque muitas se perderam. Essa própria Kiki que eu estou falando tem um documentário super interessante, está até no YouTube, e mostra, inclusive, que a própria comunidade que a gente tem aqui no YouTube, que é a Kiki, às vezes deixou de fazer por um tempo, então eles, no caso, eles tentam refazer o ritual e recuperar, relembrar, então tem sempre esse também, esse movimento de rememoração do que é essa bebida, de como ela faz, que sentidos elas têm, e muitas delas se perderam junto com, claro, o extermínio às vezes de grandes comunidades, e outras por processos históricos, então estou falando isso também um pouco por uma dificuldade de a gente conhecê-las, principalmente essas do passado, E o porquê que, grande parte das vezes, a gente tem que recorrer à documentação feita pelos colonizadores para ter acesso ao que elas eram, como elas eram consumidas e tudo mais.”

 

Seguindo nessa linha do tempo, no período colonial na América do Sul quais foram as influências trazidas por espanhóis, portugueses e claro pelo povo africano, que foi escravizado e que certamente moldou a nossa vida e cultura em tantos pontos?

 

Chegada das caravelas portuguesas ao BrasilEntão, o que vale a pena a gente pensar nesse movimento, né? é que a gente está num primeiro momento, digamos assim, de globalização, de mundialização. É a primeira vez que as conexões entre os lugares, elas ganhavam uma dimensão mundial. A gente falou hoje de mundialização, globalização, se a gente for pensar onde tem um certo ponto de inflexão sobre esse processo, eu diria que é nesse momento em que se dá o início da colonização da América. Alguns reinos como Portugal e Espanha detinham colônias ou pontos de comércio que estavam na América, na África, na Ásia. E ainda mais num momento que a gente chama de União Ibérica, que vai de 1580 a 1640, que tem a união das duas coroas, elas têm um território imenso no mundo. O que faz com que os produtos, inclusive, eles caminhem muito mais em um nível global. O que faz com que lugares tenham as suas coisas específicas, mas tenham conexões com vários outros lugares. Por isso, muita coisa entra, mas muita coisa sai, no caso do Brasil também. Então, por isso, a gente vai ter a inclusão aqui de espécies animais, espécies vegetais, e o que vai… modificar a alimentação dessas pessoas num nível planetário. Então, sei lá, da banana que vem do sudoeste asiático e é introduzida no Brasil. E a gente pensa essa fruta como uma fruta praticamente nacional. Um símbolo nacional, né? Quer dizer, parece que já sempre fez parte da nossa cultura, como outras coisas que saem também, se a gente for pensar. Por exemplo, uma fruta também como fruta. O caju. O caju vai para a Índia e tem uma importância super grande naquele país. Tem até uma bebida chamada fenim, que é um destilado de caju, que ele é muito forte em Goa, que era a capital de Portugal na Índia. E a troca entre essas duas capitais é muito forte. Então, o caju, pensa que é uma fruta brasileira muito importante aqui, vai desembocar numa bebida, num destilado super importante em Goa, na Índia. Então… Enfim, eu começaria respondendo nessa pergunta tendo esse contexto em mente, que é uma primeira globalização em que essas conexões, elas se dão, elas se irradiam para vários lugares e que diferentes agentes têm contatos e há uma troca bastante intensa entre países e regiões de diversos lugares do mundo.”

 

Inclusive é isso que vai levar o milho para a costa ocidental do continente africano e lá ele vai ter uma grande importância para os povos daquela região, porque havia ali um repertório de cereais que eles eram processados tanto para alimentação quanto para bebidas. E não demorou para que esse milho fosse processado mais ou menos da mesma forma. E inclusive hoje algumas pessoas conhecem, mas nem todo mundo conhece o aluá, que hoje é uma bebida de caráter refrigerante. As pessoas conhecem talvez mais ele feito a partir da casca do abacaxi, mas ele também tem uma versão feita com milho. E nessa época a terminologia aluá e outras variantes que vem… do banto, do quimbundo, eles eram basicamente bebidas embriagantes. Hoje ele é um refresco, ele passa por uma fermentação mais rápida, ele é adoçado no final, mas antes ele era praticamente uma cerveja de muitos povos ali da África Ocidental, da região do Congo, de Angola, e de onde se tirou muita gente para trazer para o continente americano no contexto da escravidão. O know-how sobre essas bebidas foi uma das coisas que veio para cá com os africanos. Outra coisa foi o dendê. O dendezeiro é chamado de rainha das palmeiras na África Ocidental. E não só se fazia óleo de dendê, o azeite de dendê, mas só do dendezeiro você tem notícias de três nomes de bebidas diferentes. Aí também, de novo, a importância da gente chamar as coisas com essa especificidade, dependendo da parte da palmeira que você extrai e de como você a processa. Então, o fruto, a seiva, por exemplo. Então, mais uma coisa importante que veio com essa galera. E foram eles os principais agentes da manipulação dos substratos, dos dejetos da produção açucareira, né? A cachaça não começou nobre de forma nenhuma, aliás, começou com fermentados, a partir dessas, o que eles chamavam de escórias do açúcar, tudo que sobrava nos tachos, ou então uma moagem de canas que não estavam muito bem na estação de colheita, para depois ser… destinada à alimentação de animais e alimentação de escravizados. E isso também foi o que deu origem aos fermentados que depois vão começar a ser destilados de uma forma mais sistemática a partir da década de 1620, talvez um pouco antes, que é quando a gente tem esses registros. Inclusive essa ideia de que onde mói um engenho destilo um alambique.”

 

Já que estamos na colônia, acho que precisamos tocar num ponto muito difícil da nossa história. Como o álcool foi utilizado na subjugação e escravização dos povos originários e dos africanos?

 

Povos escravizados resistindo à opressãoEsse ponto que o Gabriel disse da introdução das bebidas destiladas é um ponto bastante importante para esse processo. Por quê? Durante muito tempo não se tocou no assunto ou se difundiu a ideia de que os indígenas não tinham tido nenhum contato com álcool antes da colonização. O que a gente falou aqui é equivocado para a gente pensar. Então, sim, já haviam bebidas, algum contato com álcool e com suas formas. dispensar a embriaguez como algo que incitaria esse contato com o indivíduo, já existia e já era praticado por diferentes comunidades indígenas. O ponto é, quando a gente pensa isso em contraposição a esse tipo de bebida, que tem um nível alcoólico muito maior. Então, se vocês estavam mais ou menos habituados a tomar bebidas com certo nível alcoólico, que não é o que a gente está fazendo, Então, você colocar diante de bebidas com um nível muito superior, de um modo muito mais agressivo, aí sim, isso se transforma em uma espécie de arma, isso vira um problema para você saber beber, você ter hábitos e saberes que te permitem consumir aquilo com um certo nível de segurança.

E aí que, enfim, a introdução dessas bebidas, elas passam a ser de fato esse instrumento subjugador. Como moeda, a gente pode pensar, o Gabriel chegou a citar que se trocava escravos, pessoas escravizadas na costa africana, muito em troca de cachaça, então não é só aqui, mas lá também, porque essas aguardentes e aguardentes de cana, a cachaça, passa a ser também moeda de troca e que acaba a influenciar também dentro do território africano, dentro das comunidades lá, utilizada para obter pessoas escravizadas. e aqui também na sua forma de, de algum modo, dominação. E também tem essa parte do fornecimento para, de algum modo, minar certas forças. Mas também, vejam, não era interessante para essas pessoas que você tivesse pessoas escravizadas, seja ela descendentes africanas ou seus descendentes, ou até indígenas que foram também escravizados, mas que não fossem capazes de trabalhar. Então, um escravizado que não tinha força ou totalmente dado ao vício, que não fosse capaz de trabalhar também, era desinteressante. Então, há uma questão tênue entre você, de algum modo, dominar e você ter essa mão de obra capaz de trabalhar para vocês. Então, vejam que é um instrumento que pode ser usado de diferentes maneiras, mas pode se voltar contra o próprio interesse produtivo dessa colonização. Agora, há uma certa dominação também, que a gente tem que estar muito atento, que é uma dominação discursiva em relação à imagem. Porque muitas vezes, esses indígenas e também africanos, eles foram representados como bêbados, como embriagados, o que reforçava uma certa imagem daquele que é o incapaz, aquele que é o pusilânime, aquele que não é capaz de se controlar, de se autocontrolar.

E como o Gabriel disse, na verdade… Essa imagem deles como fracos, como seres que não tinham essa mente forte para se auto contrair, exerce controle sobre si, muitas vezes foi uma forma de afirmar a sua selvageria, a selvageria desses povos em contraposição com a civilização do europeu, que esse sim poderia se controlar. E aí é muito interessante a gente pensar como certos valores mediaram essa representação, como um valor fundamental no ocidente, no período medieval, que vai desembocar também nesse. que é a própria ideia de moderação, de temperança, isso que era a visão europeia da bebida, era muito assim, beba pouco, mas beba sempre. Você poderia consumir quase todos os dias, mas pouco. Enquanto a modalidade de bebida de outros povos, como os indígenas, era não beber todo dia, ao contrário, em datas muito raras, mas beber muito para ter justamente esse contato com o divino.

Então, vejam, são duas modalidades de como conceber… a forma como a gente bebe, a quantidade que a gente bebe e as razões por o quê. Então essa visão europeia que está mediada por esse valor da temperança, olhando muitas vezes essas práticas indígenas, vão ver aquilo como um absurdo. São uns bêbados, eles não sabem beber. O que vai acabar perpetuando uma certa imagem deles também como embriagados, diminuindo a sua própria capacidade de autocontrole, de sua força. E só para arrematar aqui, vejam como esse valor da temperança, Ele é muito forte na cultura ocidental, a ponto que a gente estampa isso em quase todo o rótulo de cerveja até hoje, né? Beba com moderação. Você fala pra pessoa que ela tem que beber assim, porque a gente acredita que a pessoa tem uma capacidade de se autocontrolar, e que se você falar isso pra ela, ela vai ser capaz de beber com moderação, entende? É um valor que ainda tá nosso e que a gente fala, e é isso, né? Esse aspecto cultural e que também vai perpetuar, então só pra fechar, essa ideia que a gente tem que olhar também com desconfiança às vezes, de que os indígenas acabaram, viraram todos embriagados, ou os africanos também.”

 

O milho hoje é uma polêmica séria na cerveja nacional. Vamos falar da história do milho na América do Sul e as bebidas nas quais ele é utilizado?

 

Campo de milhoO milho tem uma dispersão muito grande há muitos milênios. E hoje é um dos cereais mais disseminados do mundo também. Eu acho que é o cereal americano com maior dispersão do mundo. E não só como um cereal base de farinha e tal. Ele também serve para você fazer xarope, que vai em um monte de aditivo de indústria alimentícia e tal. Umas pesquisas interessantes que saíram recentemente fizeram inclusive análises genéticas de amostras de milho hoje e um parente selvagem para ver como foi esse processo de domesticação. do milho para algumas populações, isso no México, nas terras altas mexicanas eles chamam, e como isso foi sendo disseminado ao longo do continente. Aí você vê diferentes marchas de populações numa povoação desse continente que vem lá do Estreito de Bering. Inclusive também tem outros estudos genéticos, são coisas muito legais, do sambaquismo no litoral brasileiro, que são esses montes que congregam conchas, congregam objetos de devoção, objetos de alimentação. e restos humanos, para você ver também que há uma correspondência genética desses povos que estão ali no litoral de Santa Catarina com gente que está com outros restos humanos de populações da América Central de 3 mil anos antes e tal. Enfim, o milho tem esses movimentos de dispersão pelo continente, quando ele tem uma segunda dispersão importante, que é há mais ou menos 6 mil anos antes de Cristo, então uns 8 mil anos atrás, quando ele chega no Peru e no oeste da Amazônia brasileira. É mais ou menos quando ele vai começar também a ser um alimento importante, um alimento central para essas culturas. É quando a gente tem os registros mais antigos arqueológicos na Amazônia brasileira de utensílios de preparo e consumo de bebidas. Então a gente pode supor que o milho é um ingrediente importantíssimo para bebidas há 6 mil anos atrás. E ele tem aí uma importância maior, eu acredito, nas comunidades da América do Sul. com algumas sobreposições de jeitos e denominações, mas ele vai se alastrando e, assim como fazia-se bebida de tudo quanto é coisa, fazia-se bebida de milho de tudo quanto é jeito. Então, por exemplo, a gente tem a denominação de titia, que a gente associa com a titia morada hoje, por exemplo, do Peru, que é um refrigerante, basicamente. Mas a titia, como fez a Cozalinda e a Cairós, é também uma cerveja, um fermentado ancestral. E no Brasil a gente tem outras variações, outras bebidas feitas de milho com seus respectivos nomes, seus respectivos contextos e as suas respectivas comunidades. Inclusive, já voltando para o nosso período colonial, tem um escrivão, alguém que estava na frota do Cabral, que depois acabou publicando um ato notarial dessa viagem em 1503. Ele é alemão, mas o nome dele está aportuguesado como Valentim Fernandes. E ele registra já em 1500 que os povos com quem eles entraram em contato na costa da Bahia faziam vinho de milho. Olha só.”

 

Rafa também opina:

 

Bom, isso aqui são conversas que a gente já teve, enfim, conversas bem regadas à cerveja. Bom, esse aspecto, primeiro voltando lá à classificação, pensar, todo fermentado de grão é cerveja? O que é? Como que a gente define? Muito da concepção das pessoas hoje do que é cerveja, como o Leandro disse, não é o que é. Vem um pouco, inclusive, da tal lei de pureza, da Baviera e tal, de 1516, E a gente tem que relativizar demais, porque o que foi aquela lei? O que é o Ducado da Baviera no século XVI na Alemanha? O que é a Alemanha naquele período? A Alemanha é um retalho imenso de mais de 500 reinos, pequenos reinos. Então isso tem uma abrangência muito pequena ali, né? Quer dizer… isso vai ganhar alguma relevância no século XX e tal, assim, como algo que vai, de algum modo, para além daquele reino, as pessoas olharem com isso. Então, assim, primeiro a gente tem que pensar o que é isso, e aí que a gente pensa de lei de pureza, enfim, que é interessante como um marco ali, mas a gente tem que relativizar o que é a Alemanha naquela época, o que é a Baviera naquela época, né? A gente tem também a ideia que em toda a Alemanha, em 1516, todo mundo passou a fazer isso. Por outro lado, e a gente pensar nesse momento histórico, principalmente já que a gente já vinha para a América, período colonial, há uma espécie de hierarquia dos alimentos, uma hierarquia dos grãos. Por quê? A gente está pensando aqui o olhar desses colonizadores, que durante muito tempo viram… O trigo como aquele, o principal grão, e o grão mais refinado, o grão mais importante, o mais valorizado. E quando eles vêm para a América, eles ainda têm como parâmetro essa hierarquia. Então, o melhor pão é o pão de trigo, e a melhor bebida não é a de milho. O milho acaba sendo colocado também dentro dessa hierarquia como um grão inferior. tendo em vista o da cevada. Então vai haver, durante muito tempo, um certo desprezo em relação ao que é da terra. A gente pode dizer assim, no período colonial, tem uma classificação, para a gente falar de classificação, aquilo que é da terra, do Brasil, da América, aquilo que é do reino, Portugal, e aquilo que é da costa, que é da África. Então você tem essa classificação do da terra, do reino e da costa. Então aquilo que é da terra… Muitas vezes é desvalorizado em relação àquilo que é do reino, né? O que é da Europa e tal. Dentro dessa hierarquia que se cria.”

 

Impossível falar de cerveja e não falar de lúpulo. Num programa gravado com o nosso amigo e historiador Sérgio Barra, ele nos falou sobre o cultivo de lúpulo no Brasil há muitos anos e que depois essa cultura se perdeu. O que temos de informações sobre isso?

 

LúpuloColocando uma questão interessante, a meu ver, pelo menos, sobre a tal da lei de pureza que a gente comentava antes. Porque durante muito tempo se falou muito que a lei de pureza tinha a ver com uma certa proteção do trigo que seria utilizado e que eles gostariam de utilizar o trigo para fazer pão. Então você precisava, de algum modo, proteger o trigo de outros usos para não ter falta de pão. Por isso você teria impedido que ele fosse usado para a fabricação de cerveja, colocando o malte de cevada. E é interessante que essas interpretações têm mudado e tem um pessoal que tem defendido que, na verdade, a questão não era o trigo nem a cevada, mas era justamente o lúpulo. Porque antes havia outras formas de dar amargor nessa bebida. Geralmente, essas pessoas tinham um conjunto de ervas que elas utilizavam, chamado gruy, em francês, gruit, em alemão. e que, na verdade, toda a questão era o lúpulo, era você colocar o lúpulo como esse ingrediente fundamental da cerveja. Então, a preocupação ali, naquele reinado, voltando a relativizar isso, era muito mais a questão do lúpulo do que a questão do malte ou do trigo. Enfim, são pontos que têm a ver com essas interpretações e que têm a ver diretamente com a utilização do lúpulo e sua importância.”

 

Gabriel complementa:

“É um ponto legal também, eu prometo que já volto pro Brasil, gente, mas é que eu acabei de me lembrar sobre isso. No inglês a gente tem a diferenciação entre ale e beer, e hoje a gente geralmente faz essa diferenciação pelo processo de fermentação, baixa ou alta fermentação. Mas entre o século 16, 17, até porque a adição de lúpulo é uma coisa continental e não inglesa, beer significava essa cerveja lupulada que vinha do continente, e a ale era a cerveja não lupulada. Então era uma outra distinção da própria língua desse período. E aí até em registro… No Brasil, acho que tem um da década de 1840, acho que é 1840 e poucos, que fala lá, ale é cerveja sem adição de lúparos. E essa percepção durou bastante tempo também. Mas voltando ao caso do Brasil, é interessante a gente ver dois movimentos distintos e tentativas mais ou menos contemporâneas de introdução do cultivo de lúparos, que eles chamavam de ensaios. Um acontece no Rio Grande do Sul, especialmente na colônia de São Leopoldo, que é uma pioneira também. Antes das primeiras fábricas no Rio, na década de 1830, você tem um pessoal dessa comunidade que abre um armazém de secos e molhados e você tem notícia de uma produção de cerveja para suprir aquela demanda muito pontual. E você também tem iniciativas, digamos, oficiais, assim, para se introduzir o lúpulo, que contaram, inclusive, com o apoio do Jardim Botânico. Isso tudo no final da década de 1860. Teve um cara que era um comendador, eu não vou ficar me atendo muito aqui a nomes, Mas ele foi para uma exposição internacional em Paris. Ele já era dono de uma fábrica de cerveja. Viu que aquilo seria uma introdução possível. E encomendou mudas de lúpulo em dois momentos para vir para o Brasil. Ele plantava aquilo no quintal da fábrica dele. Também deu mudas para o Imperial Instituto Fluminense de Agricultura. Também contou com o apoio do Jardim Botânico. Mandou mudas até para Juiz de Fora, que tinha uma escola agrícola. Mas por mais que essas experiências tenham notícias de que elas tenham sido positivas, de repente você vê que o cultivo vai vingar. Você também distribui algumas mudas para quem estava ali em volta do Rio de Janeiro. Tem gente de Curitiba que imediatamente pede envio de sementes. Tem gente de Santa Catarina que também pede envio dessas sementes. Essa iniciativa meio que vai minguando. E ao mesmo tempo, a iniciativa lá de São Leopoldo tem um… um dos descendentes dos gestores da colônia, que já no começo do século XX, e isso é uma informação que o Sérgio coletou, ele é muito bom, várias coisas que às vezes a gente começa a investigar, dá uma chegada lá na coluna dele do Guia da Cerveja e fala assim, pô, esse cara já adiantou esse assunto, que é uma beleza, né? Mas aí às vezes, em algumas coisas, a gente consegue se aprofundar um pouquinho mais. E aí um dos descendentes dos responsáveis por essa colônia vai dizer que com a morte de um dos patriarcas na década de 1870, as pessoas vão perdendo interesse pelo cultivo e ele acabou minguando lá também. Mas eu acho que o interessante de notar é que o ímpeto no Rio Grande do Sul me parece uma tentativa de manutenção desses padrões de consumo culturalmente alemães. Você tem aquele ingrediente ali, você tem uma proliferação de feitores de cerveja na região, mas ela não necessariamente almeja uma dimensão que alcance todo o país para você vender para as outras províncias. E no Rio de Janeiro você tem esses vários esforços industriais e agrícolas de tentar fazer com que seja uma indústria potentosa que também alcance, quem sabe, um mercado internacional. Uma tecla que sempre se bate no século XIX é que a maior riqueza do país é a agricultura. Então já vinha se reconhecendo também entre os anos 1860 e 1870 que a indústria de cerveja vinha crescendo. Uma grande barreira para isso era a necessidade de importação dos insumos. Inclusive há uma… Uma política tributária muito mal calibrada, porque os caras falam, vamos proteger a indústria nacional, então vamos taxar tudo que vem de fora. Mas aí você precisa dos ingredientes que vêm de fora, então você tem que repassar aquele preço caro para o seu consumidor. E nisso a indústria segue engatinhando por conta desse planejamento de centavos. E aí o discurso em favor do lúpulo também é bem nacionalista, você vê que a cerveja nesses ciclos oficiais não é vista como algo… negativo, como algum tipo de produto inferior, comparado ao vinho, comparado a outras coisas, mas ele acaba não vingando, né? A gente simplesmente para de ouvir falar sobre o cultivo de lúpulo nessas publicações do Instituto de Agricultura, da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e outros periódicos dessa época.”

 

✨Leia também: Surra de Lúpulo #183: O poder do consumidor periférico com M.M. Izidoro

✨O que bebemos durante o programa? Gabriel bebe Cervejaria de Batatais – Urutau – Black IPA; Rafael bebe Irmandade da Cerveja – Guarapuava; Lud e Leandro bebem água.

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