Um brinde aos 300 episódios, com os Refrescos de uma nova fase

Dos estúdios da Pint.Network, Ludmyla Almeida, a IPAcondríaca, abre o Surra de Lúpulo celebrando 300 episódios em quase seis anos e, ao mesmo tempo, inaugurando uma novidade: a série Refrescos, um espaço de debate com a presença de várias mulheres que complementam a bancada. A ideia é simples e poderosa. Embora seja uma editoria predominantemente mensal, ela nasce com a promessa de ser um encontro recorrente, leve no formato e profundo nas reflexões.

Além disso, o clima é de improviso. Não há pauta fechada e, justamente por isso, o papo flui como conversa de mesa, com desvios, conexões e verdades ditas sem roteiro. Ainda assim, fica claro desde o início que o objetivo é ampliar pontos de vista e conversar sobre assuntos diversos, algumas vezes tocando na cerveja, outras nem tanto.

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Quem está na mesa de Refrescos e por que isso importa

Para começar, cada convidada se apresenta em uma frase, do jeito que dá, com humor e honestidade. Chiara Barros brinca que é “mansinha, mas nem tanto” e solta que “fala verdades”. Carolina Oda resume uma década intensa: “respirei cerveja por dez anos e depois saí por N motivos, mas tem um lado meu que ainda ama”. Daiane Colla embarca na brincadeira e reforça a mistura de força e vulnerabilidade. Já Lud se descreve como uma “bola de estresse” viciada em entregar projetos, aquela pessoa da ação que, quando alguém traz um problema, já pergunta “onde eu cavo?”.

A partir daí, o assunto engrena numa sequência de temas que atravessam o mercado inteiro: concursos cervejeiros, visibilidade, trabalho voluntário e profissionalização. E, embora pareça um recorte específico, ele abre portas para questões maiores sobre carreira, grana, vaidade e estrutura do setor.

Cerveja - Refrescos - Surra de Lúpulo

Concursos cervejeiros: diversidade, custo e o peso do “trabalho voluntário”

Chiara traz uma perspectiva afiada sobre a seleção de jurados. Por muito tempo, segundo ela, existiu uma seletividade concentrada em um grupo e em uma região, com o mesmo olhar sobre a cerveja. Não é uma crítica à qualificação dessas pessoas; no entanto, é uma crítica à lógica de repetição e até à preguiça de procurar profissionais em outras partes do país. Porque, quando se procura, se acha. Portanto, dizer que “não tem gente” no Norte, Nordeste ou Centro-Oeste é mais conveniência do que realidade.

Ainda assim, mesmo quando há profissionais, surge outra barreira: acessibilidade. Nem todo mundo pode bancar passagem e dias fora de casa para um trabalho que é voluntário. Além do deslocamento, existe o tempo. Por isso, Chiara relata a exaustão de ter julgado até sete concursos em um ano e explica por que, em muitos momentos, ela sentia que, se não fosse, uma porta quase inexistente se fecharia para as pessoas da região dela, principalmente para as mulheres.

CBC 2026

Daiane complementa com uma visão igualmente prática. Ela gosta de julgar e também já organizou concursos. Além disso, valoriza entender os bastidores e o “background” do evento. Ao mesmo tempo, reconhece que o modelo atual tem limites. Mas enxerga o julgamento como uma forma de ajudar o mercado e, por muitos anos, tentou aceitar o máximo de convites possível, inclusive para abrir portas para mais mulheres.

Lud entra com um incômodo pessoal que ecoa em muita gente: ela nunca julgou concurso, e isso frequentemente vira motivo de desrespeito. Como se faltasse legitimidade por não ser “Juíza BJCP”. Entretanto, ela questiona essa régua: parece que, para ser reconhecida, a pessoa precisa editar vídeo, fazer harmonização, julgar, ensinar, produzir conteúdo e cumprir um “caminho traçado”. Caso contrário, é julgada.

Prestígio, “troca por divulgação” e o preço de se profissionalizar

Carol traz um ponto que muda o eixo da conversa. Ela julgou muitos concursos, inclusive de outras bebidas, mas se afastou quando percebeu o papel social do sommelier como uma “elite crítica” que ajuda a desenhar o bom gosto alheio. A partir de um contato com ideias sobre estética do gosto, ela teve uma crise: estava gastando dias e horas ajudando a definir o gosto dos outros. Então, decidiu redirecionar energia.

Além disso, Carol explica por que hoje prefere concursos em que a avaliação vai além do líquido. Na coquetelaria, por exemplo, entram discurso, hospitalidade e outras camadas. Assim, o julgamento deixa de ser apenas “aroma e sabor” e passa a olhar o todo.

Refrescos - Surra de Lúpulo

A conversa, então, aterrissa em algo muito familiar: a troca por divulgação. Carol afirma que isso existe em todas as esferas. Porém, o problema aparece quando pessoas muito competentes topam fazer de graça ou por muito pouco. Nesse cenário, quem precisa viver do serviço se vê pressionado. Se até em chances óbvias de remuneração a galera aceita fazer de graça, o mercado nunca aprende a pagar.

Chiara é categórica: permuta de consultoria, não!” Ela chama isso de precarização. E vai além: se um seminário é pago, ela não palestra de graça, a menos que a verba tenha um destino que ela considere importante. Do contrário, é alguém ganhando em cima do trabalho dela. Seu preço, ela diz, carrega valor: anos de estudo, dedicação e compromisso com resultado. E, quando tentam comparar com “fulano mais barato”, ela encerra a conversa com firmeza.

Daiane fecha esse bloco trazendo um exemplo de modelo que caminha, ainda que não seja perfeito. Para ela, o único concurso que conhece que paga algo aos jurados é o World Beer Cup, em um formato recente de taxa, descontos de hospedagem, alimentação e uma pequena remuneração. Não é o ideal, mas é um caminho. Já passou da fase de o mercado brasileiro também pensar em organização e profissionalização de verdade.

Transição de carreira: quando o sonho encontra a conta no fim do mês

A conversa migra naturalmente para transições de carreira, porque muitas pessoas entraram na cerveja durante o boom e depois enfrentaram suas dores. Lud costura a reflexão: o mercado cresceu, formou muita gente, abriu cervejarias, gerou movimento. Porém, agora vive um platô e até decréscimos. Isso faz parte. Ainda assim, transitar exige estratégia.

Daiane conta que veio do jornalismo. Ela amava redação, mas não se sentia valorizada financeiramente. Então, migrou para assessoria, que pagava melhor, porém tirava o contato humano que ela gostava. Nesse caminho de mudança de cidade e vida, a cerveja a encontrou. Contudo, veio o despertar: estudar, investir e se dedicar sem retorno não fazia sentido. Hoje, o que dá retorno dentro da cerveja é o Passaporte Cervejeiro, empresa de viagens cervejeiras que leva grupos para a Bélgica e, agora, também para a Alemanha. Dessa forma, ela uniu viagem, pessoas e cerveja.

Refrescos - sommelieria

Chiara mostra que transição nem sempre é sair do setor. Ela é engenheira química e ampliou o leque com consultoria e gestão sensorial em outros alimentos, inclusive sorbet de açaí. O mercado oscila e a pandemia foi um divisor de águas. Portanto, diversificar virou questão de sobrevivência.

Carol, por sua vez, revela uma lógica de adaptabilidade. Começou na gastronomia e entrou na cerveja muito cedo. Ao perceber que o mercado de cartas de cerveja ficaria saturado com a explosão de sommeliers formados, ela antecipou o movimento e migrou para operação e atendimento. Depois, ajustou novamente a rota. Para ela, a empresa é ela mesma. Se algo incomoda, ela muda.

Memória, ancestralidade e a urgência de contar histórias

No final, surge um tema sensível e necessário: memória e legado, puxado pela lembrança de Kátia Jorge. Mesmo com experiências diferentes de convivência, Chiara e Carol ressaltam a importância de referências femininas em um mercado em que, por muito tempo, as mulheres existiam de forma isolada.

Chiara descreve Kátia como alguém que abriu portas e que quebrou barreiras. Segundo ela, até as pessoas mais difíceis reverenciavam aquela mulher. Ela lembra que muitas conquistas posteriores só foram possíveis porque alguém antes enfrentou resistência. Carol recorda a generosidade nas mesas de julgamento e o humor fora delas, momentos que misturavam aprendizado técnico e convivência leve.

Kátia Jorge
Kátia Jorge (1963-2025)

Enquanto isso, Lud conecta o assunto a uma inquietação maior: a falta de tempo para registrar histórias enquanto as pessoas ainda estão aqui para contá-las. Inspirada por projetos que escutam mulheres mais velhas e valorizam ancestralidade, ela revela o desejo de criar algo semelhante dentro da cerveja. Porque, quando alguém se vai, a história fica fragmentada. E, de repente, a “velha guarda” vira a gente.

Essa percepção traz responsabilidade. No entanto, também reforça o propósito do Refrescos: criar um espaço seguro para conversar, se reconhecer e construir algo coletivo antes que a memória se perca.

Refrescos que pedem continuidade

Este primeiro episódio termina com a sensação de que a liga deu certo. As próprias participantes reconhecem que o encontro foi terapêutico e que há vontade de repetir. Além disso, Lud convida quem ouviu a participar ativamente: mandar sugestões de pauta, comentar nas DMs, propor temas e ajudar a moldar a série como uma criação coletiva.

Se Refrescos nasceu como comemoração, ele rapidamente mostrou ser outra coisa. Tornou-se um espaço onde o mercado cervejeiro é discutido com franqueza, sem romantização do trabalho gratuito e sem medo de falar de dinheiro, carreira e estrutura. E, talvez por isso, já começa deixando um recado importante: não dá mais para chamar de amor aquilo que, na prática, virou precarização. Ao mesmo tempo, não dá para negligenciar a memória de quem construiu o caminho até aqui.

Porque celebrar 300 episódios é olhar para trás. Mas, sobretudo, é decidir como queremos construir os próximos capítulos dessa história! 🍺

Gabriel Gurian

Historiador, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), meus estudos são pautados por bebidas e bebedores na história do Brasil, em diferentes períodos. Atualmente integro o projeto Comer História, desenvolvo pesquisa pós-doutoral na Universidade de São Paulo (USP), com foco no nascimento da cultura cervejeira brasileira no século XIX, e colaboro com o Surra de Lúpulo.

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