O Surra de Lúpulo chega aos seis anos em 2026, já perto do episódio #300, depois de atravessar de tudo no universo cervejeiro: ingredientes, estilos, mercado, polêmicas e cultura. Ainda assim, existe um detalhe simbólico: o episódio mais ouvido da história do programa não “exalta a cerveja”, mas fala de alcoolismo (o ep. 71, com Bárbara Gancia). Por isso, quando a conversa sobre reduzir consumo, bebidas sem álcool e gerações bebendo menos começa a ganhar força, Ludmyla Almeida encontra um conteúdo que provoca: o perfil Tem gente que não bebe, criado por Anna Carolina Gouveia.

Anna conta que o projeto nasceu de um incômodo com a própria relação com o álcool. Ela queria ver mais reflexões em português, mas encontrava quase tudo em inglês. Então, em vez de esperar a “turma” aparecer, ela criou o ambiente que gostaria de habitar. E, a partir daí, o que era pessoal virou espaço de troca.

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A relação com a bebida antes da virada: “eu era inimiga do fim”

Antes do desafio de ficar um ano sem beber, Anna diz que sua bebida principal sempre foi a cerveja. Tanto que ela evitou até provar vinho, com receio de “gostar e acrescentar mais uma coisa” ao repertório. Além disso, ela começou a beber ainda adolescente e entrou na faculdade com 17 anos, o que intensificou o hábito. Ela se descreve como “inimiga do fim”: a última a sair do bar, a que passava do ponto, a que vivia episódios de exagero que, no grupo social, pareciam normalizados.

Nesse ponto, Lud puxa um tema espinhoso do próprio mercado cervejeiro: o mantra “beba menos, beba melhor”. Embora pareça educativo, ele também pode soar elitista e criar distâncias, como se alguém estivesse ditando o “certo” e o “errado”. Ao mesmo tempo, elas lembram que eventos open bar frequentemente desmontam qualquer discurso de moderação, porque a lógica vira “paguei, então preciso beber até acabar”.

Álcool - excesso

Trend de wellness ou mudança real?

Quando a moderação vira pauta, surge a pergunta: isso é movimento genuíno ou só moda? Para Anna, as duas coisas coexistem. Por um lado, existe sim uma onda “wellness” que pode ser passageira. Por outro, desde a pandemia, saúde mental virou prioridade, e muita gente passou a perceber que o álcool não é neutro: mexe com sono, ansiedade, humor, energia e decisões.

Assim, mesmo quando a entrada é “pela moda”, ela pode abrir a primeira pergunta honesta: por que eu bebo? E, quando essa pergunta é real, o processo tende a ser mais transformador.

Moderação

O social como gatilho: quem sou eu sem o álcool?

Durante o ano sem beber, Anna relata um começo difícil: vontade, deslocamento, raiva e uma sensação injusta de “todo mundo pode, menos eu”. Só que, com terapia, ela identificou um ponto central: o álcool funcionava como ferramenta social. Ela se descobriu mais introspectiva do que imaginava e percebeu que sustentava uma “persona” extrovertida que era cansativa. Inclusive, ela conta que chegou a beber até para gravar podcast — mesmo sendo com a esposa — porque sentia que precisava desse impulso para interagir.

Lud conecta isso com a ideia do álcool como “lubrificante social” e até como elemento histórico de ritual e conexão. No entanto, justamente por ser tão cultural, traçar limite vira difícil. E aí vem um dos achados mais fortes do episódio: a questão da identidade. Para Anna, muita gente não para (ou não reduz) porque se definiu como “a pessoa que bebe”. E, quando você mexe nisso, parece que fica sem chão. Só que, como ela diz, a gente não é uma coisa fixa: a gente está. Portanto, desapegar dessas caixinhas também é parte do caminho.

Reinserção com estratégia e o medo de voltar tudo

Anna conta que só perto de um ano começou a sentir benefícios com mais clareza. Depois, ao completar o ciclo, veio o medo: “e se eu beber e voltar tudo?”. A reinserção, então, foi estratégica: começar por contextos menos propensos ao exagero, como restaurante e jantar, em vez da “sexta do churrasco que vira madrugada”. Aos poucos, ela passou a beber eventualmente, sem contar dias, sem virar “presa” do controle. E, hoje, ela diz que consegue viver como a mãe dela: bebe quando quer, para quando quer, e segue a vida.

Moderação - jantar - brinde

A conversa que falta: o “meio” entre abstinência e “tô de boa”

Na reta final, Anna aponta o que considera o grande buraco do debate público: a falta de conversa sem extremos. Parece que só existem duas categorias, “alcoólatra” ou “tranquilo”. Só que a vida real é mais complexa: tem quem não beba todo dia, mas beba muito na sexta; tem quem use álcool como fuga social; tem quem queira reduzir e não consegue; e tem quem não se enquadre em estereótipos de novela, mas ainda assim se sente mal. Por isso, ela defende falar mais do “meio”, com linguagem do comportamento e do cotidiano, e menos como tribunal moral.

Até a palavra “moderação”, tão usada em campanhas, raramente é explicada. E Lud traz um dado que aparece na prática da pesquisa de consumo: muita gente se percebe como moderada, mas, quando quantifica doses, isso não se sustenta. Além disso, há um recorte interessante: mulheres, mesmo bebendo menos, tendem a avaliar o próprio consumo como menos moderado; homens, mesmo bebendo mais, frequentemente se consideram moderados. Ou seja, percepção também é cultura.

O que é moderação para você?

No fim, o episódio deixa uma provocação simples e potente: o que é moderação para você? Porque, embora a palavra esteja em todo lugar, ela muda de pessoa para pessoa. Ainda assim, conversar sobre isso — sem moralismo e sem romantização — pode ser exatamente o passo que faltava para alguém olhar para o próprio consumo com mais honestidade, mais gentileza e mais autonomia.

Gabriel Gurian

Historiador, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), meus estudos são pautados por bebidas e bebedores na história do Brasil, em diferentes períodos. Atualmente integro o projeto Comer História, desenvolvo pesquisa pós-doutoral na Universidade de São Paulo (USP), com foco no nascimento da cultura cervejeira brasileira no século XIX, e colaboro com o Surra de Lúpulo.

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