Por que falar de tampinha não é bobagem
A série Cada Cerveja, Uma História até hoje passeou por marcas, estilos e instituições. Porém, no seu 14º episódio, o primeiro de 2026, Ludmyla Almeida, Henrique Boaventura e Gabriel Gurian resolvem fazer um desvio delicioso: em vez de contar a história de uma cervejaria, contam a história de um objeto. E, embora pareça “só” um pedacinho de metal, a “tampinha coroa“ sustenta três pilares do que entendemos hoje como bebida industrializada: higiene, carbonatação e padronização. Além disso, ela ajudou a viabilizar distribuição em larga escala com segurança alimentar, o que, por consequência, impactou hábitos de consumo domésticos e parâmetros comerciais de bebidas.
No papo, a provocação inicial é simples: você abre uma garrafa sem pensar ou percebe que ali existe tecnologia? Porque, na prática, esse “negocinho” é o que evita vazamento, contaminação e perda de gás. E, portanto, é o que permite que a cerveja permaneça e chegue a você como deve ser, do envase ao gole. Bora entender mais sobre isso?
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Antes da coroa: rolha, barbante, arame e o risco (literal) de explosão
Para entender por que a tampinha foi uma revolução técnica, o episódio começar abordando a questão do envase de bebidas. Por muito tempo, as cervejas circularam principalmente em barris. A garrafa aparece primeiro como objeto de uso doméstico mais visível no século XVI e ganha tração comercial no século XVII, mas ainda sem derrubar a primazia dos barris. Conforme a cerveja, bem como outras bebidas fermentadas, passa a ser engarrafada, um dilema principal se apresenta: como vedar um líquido que ainda fermenta dentro da garrafa, criando pressão?
A solução “clássica” foi a rolha de cortiça, frequentemente reforçada com um barbante. Gabriel cita um manual inglês de economia doméstica publicado em 1615, de Gervaes Markham, que instruía o seguinte: as donas de casas, cervejeiras caseiras, deveriam colocar a bebida “em garrafas redondas com bocas estreitas e, em seguida, vedá-las bem com rolhas, colocá-las em uma adega fria, enterradas até o meio em areia, certificando-se de que as rolhas estejam bem amarradas com um barbante resistente, para evitar que se soltem e vazam, o que arruinaria completamente a cerveja”.
Como a pressão interna era um tanto quanto imprevisível, chegava-se, como ele recomenda, a enterrar garrafas até a metade na areia, tanto para estabilizar temperatura quanto para reduzir danos caso elas estourassem. Uma espécie de “segurança alimentar raiz”, como brincam os apresentadores.

A disseminação da garrafa
Com a popularização comercial da garrafa no século XIX, o problema da vedação adequada escala. Quando você sai do cenário doméstico para depósitos e fluxos de exportação, a vedação ruim deixa de ser inconveniente e vira prejuízo. Aí entram também soluções com arame, que prendiam a rolha, mas podiam deformá-la.
Nessa época, no Brasil, o reforço da rolha com barbante era também bastante comum, o que levou a algumas distinções das cervejas comercializadas a partir disso, entre a gama de denominações vigentes, derivadas de origem, tipo e fabricante das bebidas.
Mas, ao mesmo tempo, a garrafa não servia só à cerveja: ela foi central para refrescos e refrigerantes caseiros ou artesanais; e para métodos até então inovadores de conservação de diversos alimentos, em contextos militares e comerciais, através da vedação e do uso de calor. Por isso, vários setores necessitavam e buscavam soluções superiores à rolha.

William Painter e o salto decisivo de 1892

É nesse cenário — e mais puxado por refrigerantes e águas gasosas do que por cerveja — que surge William Painter, um inventor versátil e virtuoso de Maryland (EUA). Em 1892, ele registrou a patente do que o mundo conheceria como crown cork ou crown cap, a “tampinha coroa”. Antes disso, ele já tinha tentado uma alternativa: uma vedação chamada loop seal, patenteada em 1885, que exigia um bocal específico de garrafa para funcionar, bem como uma ferramenta própria para removê-la e acessar o conteúdo da garrafa.
O contexto importa porque, na época, o escritório de patentes dos EUA já tinha registrado cerca de 1.500 ideias de “bottle stoppers”, de mecanismos de vedação, que tentavam responder a essas demandas da indústria de alimentos e bebidas.
Só que muitas dessas patentes eram para tampas reutilizáveis, como os flip-tops (patenteados em 1874). O diferencial do loop seal e, depois, da “tampinha coroa”, como o episódio sublinha, é terem sido pensados para uso único. Isso pode até parece contraintuitivo, mas foi exatamente o que permitiu baratear, padronizar e escalar a oferta desses itens, através da Crown Cork and Seal Co. Além disso, a coroa vinha com um revestimento interno (nos primórdios, era de cortiça), chamado de liner, para impedir o contato do líquido com o metal da tampa, impedindo reações e alterações indesejadas.
Mais refinamento e novas soluções para novos problemas
Como todo design industrial, o objeto foi refinado: mudanças de curvatura e espessura da tampinha, e do “lábio” da garrafa própria melhoraram tanto vedação quanto diminuíram a força necessária para abrir uma crown cork. E, claro, Painter, sagaz como era, resolveu o próximo problema: em 1894, ele patenteou o abridor que, de um lado, tirava a “tampinha coroa” e, do outro, ainda servia para abrir selos do sistema anterior dele. Sim, ele inventava e vendia o pacote completo.
Aliás, esse é praticamente o mesmo design mais conhecido de abridores de cerveja até hoje!

Marketing, mito dos “21 dentinhos” e o que realmente importa
Em determinado momento, Ludmyla relembra vídeo de que saiu nos reels do Instagram. Nele, o apresentador afirma que a tampinha tem 21 “dentinhos” por um motivo “cabalístico” e perfeito. Gabriel, no entanto, refuta essa ideia: embora o padrão atual costume ser esse, as fontes consultadas não tratam o número como crucial, e já houve versões com 24 incisões, ainda no tempo de William Painter.
Ou seja, não existe “número milagroso” que, sozinho, garanta vedação. O que manda nessa equação é um conjunto: material da tampinha, espessura, padrão da boca da garrafa e processo de arrolhamento. Ainda assim, a discussão cumpre seu papel: ela mostra como um design longevo desses, de tão bom, consegue alimentar credivelmente tais lenda.
E vemos como essas lendas geram engajamento…
Do auge ao padrão global: crise, fusão e o liner moderno
Painter morreu em 1906, com 67 anos, sem ver todo o tamanho do impacto. Depois, a trajetória da tecnologia é confrontada com alguns tropeços: expiração de patentes entre 1909 e 1911, e o baque da Lei Seca (1920-1933) na indústria estadunidense de bebidas, especialmente o mercado alcoólico. Porém, surge uma virada corporativa na Crown Cork and Seal Co. durante a década de 1920. Isso com Charles McManus, ligado à New Process Cork, que desenvolveu a cortiça consolidada, com folhas feitas com partículas do material. Tal invento permitiu, no contexto das tampinhas, liners mais finos, eficazes e econômicos. Além disso, ele assumiu a empresa de Maryland, mantendo-a viva vendendo tecnologia nova para um mercado que já replicada formas mais antigas da “tampinha coroa”.
Com o tempo, a crown cap virou norma. Um almanaque citado no episódio aponta que, em 1959, foram usadas no mundo 46,5 bilhões (com “B” de bananada mesmo!) de tampinhas desse tipo. Foi também na década de 1950 que o liner deixou de ser feito de cortiça, migrando para materiais sintéticos, num padrão que conhecemos hoje.

Um gole de história para levar com você
No fim, a “tampinha coroa” é comparada a uma caneta BIC: um design simples, durável e funcional que atravessa décadas com pouquíssimas mudanças. E isso explica por que, mesmo com alternativas (rolha, flip-top, twist-off, pry-off e até a vedação com cera, tudo muito bem explicado por Henrique), a coroa segue firme no topo. Ainda que imperfeita, é o melhor equilíbrio entre custo, escala e desempenho. E, quando a gente percebe isso, abrir uma garrafa deixa de ser gesto automático e vira também um pequeno encontro com a história.
A tampinha não é um mero detalhe: ela é a representação material de toda uma infraestrutura e de avanços industriais importantes nos séculos XIX e XX. Ela ajudou a transformar bebidas gasosas em produtos globais, padronizou gargalos, moldou hábitos domésticos e ainda alimenta mitos de internet. Portanto, da próxima vez que você ouvir o “psst” ao abrir uma garrafa, vale lembrar: esse som é o eco de mais de um século de engenharia, mercado e cultura cervejeira. 🍺