Neste episódio do Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida recebe Fernanda Bressiani, da Escola Cerveja e Malte, para uma conversa que atravessa dois pilares que ajudaram a moldar o mercado craft no país: concursos cervejeiros e educação cervejeira.

Logo de cara, a Fê ajuda a inaugurar a “pergunta fixa” do programa com uma trajetória que foge do roteiro óbvio. Formada em Arquitetura, ela conta que sempre foi decidida sobre escolhas de vida, mas que acabou se frustrando com a dinâmica do trabalho na área, especialmente quando referências fáceis passaram a tensionar a relação com clientes. Ainda assim, a mudança para a cerveja não aconteceu por acaso. Ela já tinha vivido outras experiências, como moda e cenografia, e então a oportunidade apareceu: o irmão havia aberto uma escola, ela já gostava de cerveja e decidiu fazer o curso de sommelier. A partir daí, o caminho foi sem volta. Ela se envolveu com aulas, coordenação, palestras e, mais recentemente, também com o universo do queijo. 🧀

Existe um ponto central nessa virada: a cerveja se tornou, para ela, uma forma de traduzir gastronomia em “comida líquida”. Ou seja, ao indicar uma cerveja de determinada cidade ou região, ela conecta sabores, cultura e experiência. E é justamente essa lente sensorial e cultural que dá o tom do episódio. Bora pra ele?

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CBC: de “feedback técnico” a vitrine (sem demonizar)

Quando a conversa entra no Concurso Brasileiro de Cervejas (CBC), a Fê é direta: o papel do concurso hoje não é exatamente o mesmo que foi no início. Lá atrás, ele era um dos primeiros concursos comerciais mais organizados, ainda sem glamour, com estrutura bem mais simples. Mesmo assim, o salto na qualidade das cervejas ao longo de anos de evolução do mercado é descrito como gritante.

No começo, muitas cervejarias buscavam principalmente feedback técnico. Esse retorno ajudava a entender qualidade, falhas e caminhos de melhoria. Hoje, embora isso ainda exista (especialmente para cervejarias menores e iniciantes), o concurso também se consolidou como ferramenta de marketing via medalhas e selos. E, para a Fê, não há problema nisso: medalha bem usada comunica consistência e dá ao público um sinal de confiança.

Mais do que isso, ela lembra que repetir premiações em um mesmo estilo ao longo dos anos funciona como evidência de padronização, algo valioso para qualquer operação que queira manter qualidade constante.

CBC 2021

Jurado não é só paladar: é método, treino e convivência

“Se todo mundo quer ser jurado, pouca gente quer estudar”. Essa frase resume uma das partes mais importantes do papo. A Fê explica que avaliar cerveja de forma técnica pede treino regular com amostras, ficha, comparação e referências. Com o tempo, isso ficou mais viável: hoje há mais cursos, mais profissionais formados e mais acesso a referências internacionais dentro do Brasil, enquanto no passado até cervejas importadas chegavam “castigadas”.

Além da técnica, ela reforça algo que muita gente ignora: perfil e comportamento contam. Ser jurado não é só “avaliar bem”; é saber dividir opinião na mesa, respeitar dinâmica, ter ritmo e até entender limites pessoais. Ou seja, um bom juiz precisa de repertório, mas também de convivência e método.

Concursos cervejeiros - jurado

Pluralidade, cuidado e respeito ao líquido

Na seleção do corpo de jurados do CBC, a Fê descreve a criação de um conselho consultivo, com cerca de 20 profissionais de diferentes regiões. A lógica é simples: um concurso brasileiro precisa ser plural, porque o país é diverso em biomas, ingredientes e paladares. Além disso, trazer jurados de 15 a 16 estados ajuda não só no julgamento, mas também na pulverização de conhecimento quando essas pessoas voltam para suas regiões.

Ela também aponta pontos práticos de melhoria: alinhamento e orientação aos jurados, cuidado com preparação (inclusive com coisas óbvias, como não exagerar antes do concurso), além de infraestrutura de amostras (câmara fria) e espaços de julgamento. No fundo, o recado é que o concurso precisa tratar cerveja com respeito. E ela faz um contraste cultural: enquanto muitos brasileiros parecem “começar do zero e somar pontos”, jurados internacionais tendem a “começar do máximo e tirar pontos”. Parece detalhe, mas muda postura, linguagem e gentileza no feedback.

Educação cervejeira após o boom, a pandemia e a era da distração

Quando o assunto vira educação, a Fê situa um boom de cursos e interesse em cerveja entre 2016 e 2018, com muita gente buscando aprender por hobby, “beber melhor” e, às vezes, até por status. Com o tempo, porém, ela percebe uma virada: hoje há mais gente do próprio mercado buscando formação. Isso aparece, por exemplo, quando profissionais de produção passam a estudar sommelieria, porque entender “um pouco de tudo” ajuda a trabalhar melhor.

A pandemia acelerou o online, e a Escola Cerveja e Malte conseguiu transitar com relativa tranquilidade porque já tinha base digital. Ainda assim, a Fê defende cautela: avaliação sensorial é difícil 100% online. Por isso, o modelo híbrido aparece como solução, com teoria online e prática concentrada em dias presenciais. Além disso, ela destaca outro desafio moderno: para reter a atenção dos alunos por horas, o professor virou quase um “professor-youtuber”, usando recursos de vídeo, imagens, música e ritmo.

Curso de sommelier - cervejas

O que é “boa cerveja”: opinião não é laudo

Na reta final, a conversa toca num ponto que dá para levar para a vida inteira: “boa cerveja” é diferente de cerveja tecnicamente bem feita. Gosto é pessoal e muda com contexto, clima e fase. O que importa, para falar em qualidade, é ausência de defeitos — e a Fê cita exemplos desses defeitos, como a presença de dimetilsulfureto (DMS) e de diacetil e execução correta.

Esse cuidado também aparece quando ela critica a ideia de “jogar para a torcida” em avaliações populares como o Untappd. Nota afeta reputação, e muita gente não entende o impacto. Por isso, como educadora, ela insiste em ensinar a diferença entre opinião e avaliação.

Untappd

Um mercado de bebidas, não uma caixinha chamada “cerveja”

O futuro, para a Fê, ficou mais difícil de prever depois da pandemia. Mesmo assim, ela aponta tendências: redução de consumo de álcool, busca por bem-estar e alternância entre bebidas com e sem álcool (o “zebra striping“). Ao mesmo tempo, a cerveja sem álcool deve seguir forte por alguns anos, impulsionada por investimento e tecnologia. E há uma mudança maior: eventos e experiências estão se abrindo para outras bebidas e gastronomia, porque o mercado de bebidas é um só.

No fim, o episódio deixa uma provocação: concursos e educação não são “enfeites” do mercado; eles são ferramentas para qualificar, comunicar e amadurecer. E, justamente por isso, precisam ser tratados com seriedade, método e respeito. 🍺

Gabriel Gurian

Historiador, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), meus estudos são pautados por bebidas e bebedores na história do Brasil, em diferentes períodos. Atualmente integro o projeto Comer História, desenvolvo pesquisa pós-doutoral na Universidade de São Paulo (USP), com foco no nascimento da cultura cervejeira brasileira no século XIX, e colaboro com o Surra de Lúpulo.

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