Estamos de volta, meu povo! E pra começar 2026, a série que já está entre uma das mais queridinhas do público do Surra de LúpuloCase Cervejeiro. Desta vez, recebemos Patrícia Mercês, CEO da Cerveja Colombina, pra dividir com a gente a trajetória, os desafios e as superações desse empreendimento que pulsa o Cerrado no coração do Brasil.

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Do boteco familiar à indústria cervejeira goiana

A história da Cervejaria Colombina começa muito antes de a marca existir. Em Goiânia, o casal Mercês, os pais de Patrícia, já respirava o universo do bar e da boa mesa. Botequeiros raiz, administravam um restaurante que se tornaria ponto de encontro e palco para um sonho: produzir o próprio chope.

Nos anos 2000, em meio à fusão entre Brahma e Antarctica que daria origem à Ambev, o pai de Patrícia percebeu que as margens dos bares estavam encolhendo. “Se eu vendo tanta Antártica, posso produzir a minha própria cerveja”, pensou. Nascia então o Chope Mercês, vendido a 50 centavos o copo. Preço popular que fez o negócio explodir em Goiânia, alcançando impressionantes 30 mil litros por mês, volume que muitas microcervejarias de hoje ainda sonham em produzir.

A operação era simples e direta: fábrica nos fundos e bar na frente. Tudo devidamente registrado no MAPA, mostrando que a seriedade já fazia parte do DNA da família. Esse embrião seria o alicerce da Colombina.

Cerveja Colombina

O retorno de Patrícia e o nascimento da Colombina

Formada em Engenharia de Alimentos, Patrícia Mercês trabalhou no Rio de Janeiro com gestão de qualidade, mas o desejo de empreender falou mais alto. Em 2013, vendo a mãe tocando sozinha a antiga estrutura de chope, decidiu voltar para Goiânia e transformar o negócio em algo maior.

Inspirada pelo ano que passou estudando na Bélgica — berço das cervejas especiais —, Patrícia trouxe um plano ousado: criar uma marca de verdade, com propósito, branding e identidade própria. Assim nasceu o Projeto Colombina, que ganharia corpo em 2014.

Foram lançados três rótulos iniciais: uma Helles, uma IPA e uma Weissbier. A proposta então era clara: traduzir o universo das cervejas especiais para o paladar local, priorizando a bebabilidade e educando o consumidor goiano, ainda distante da cultura craft.

Na época, ser microcervejaria era sinônimo de improviso. “As marcas eram desenhadas no Word, pelo primo”, lembra Patrícia. A Colombina, ao contrário, nasceu com uma estratégia de posicionamento profissional, marketing estruturado e foco comercial. Assim, em Goiânia, tomar chope artesanal deixaria de ser vergonha para virar orgulho.

Colombina

Crescimento, crises e a arte da adaptação

A trajetória da Colombina coincidiu com os altos e baixos do mercado brasileiro. A primeira grande prova veio logo no lançamento, durante a crise econômica de 2014. Patrícia buscava financiamento no BNDES para a compra de uma linha de envase automatizada, mas o banco congelou os repasses no meio do processo.

“Eu já tinha fornecedor, máquina pronta e nenhuma linha de crédito”, recorda. Foi a imprensa local que, sem querer, ajudou a destravar o impasse. O jornal O Popular estampou na capa: “O jeito goiano de fazer cerveja”. No dia seguinte, o banco ligou avisando que o recurso havia sido liberado.

A segunda grande virada veio com a pandemia de COVID-19. Antes dela, a Colombina vivia um ciclo virtuoso, com presença crescente em redes de supermercado e investimento em novos equipamentos, incluindo um pasteurizador de túnel para profissionalizar a linha de envase. Mas, com bares fechados e insumos disparando de preço, a cervejaria viu seu faturamento despencar para 20% do normal.

A CEO não disfarça: “Foi quase o fim. Mas me fez voltar ao centro, reorganizar cultura, propósito e processos internos. A pandemia me ensinou o que é essencial.

Paixão é importante, mas negócio vem primeiro

Um dos pontos mais marcantes da conversa de Patrícia com Ludmyla e Henrique foi sua visão sobre a profissionalização do setor.

Para ela, muitas microcervejarias nascem do entusiasmo do cervejeiro caseiro, do sujeito apaixonado pelo líquido, mas pouco preparado para a complexidade da indústria. “Nasce da paixão de fazer cerveja, mas não da paixão de fazer negócio”, afirma.

Patrícia enxerga a gestão da Colombina com os pés no chão: é preciso ter comercial ativo, marketing estruturado, responsabilidade técnica e alimentar. “Cerveja é alimento. A gente sabe o que uma irresponsabilidade produtiva pode causar”, disse, relembrando crises que marcaram o mercado.

Ela reforça que não há problema em ter paixão, desde que equilibrada com organização e propósito. “Paixão é fé. Mas sem gestão, ela não sustenta o negócio”.

Hoje, a Colombina possui 14 rótulos divididos entre linhas de giro, produtos regionais e a linha Coralina, mais complexa e premiada. Mas o foco é claro: produzir cervejas vendáveis, reais e consistentes, não produtos de laboratório voltados só para concursos.

Cervejas

Da gôndola ao estádio: a estratégia comercial da Colombina

Um dos diferenciais da Colombina é sua força de distribuição e presença no varejo. Enquanto muitas microcervejarias se restringem ao circuito de bares e empórios, Patrícia apostou cedo no supermercado como principal vitrine de marca.

“Todo mundo diz que a Ambev compra 70% da gôndola e a Heineken 30%. Beleza. Mas sobrou espaço, e é ali que a gente entra”, explica. Essa mentalidade agressiva garantiu visibilidade e reconhecimento: há seis anos consecutivos, a Colombina é a cerveja artesanal mais lembrada de Goiás.

O trabalho é feito no chão de loja, com visitas constantes, degustações e acompanhamento de PDV. Além disso, a marca ousou no marketing: fechou parceria com o Goiás Esporte Clube, tornando-se a cerveja oficial do time.

Dentro do estádio, só o chope Colombina é servido, inclusive na versão verde, feita com clorofila, em homenagem às cores do clube. A ação rendeu exposição e engajamento regional, unindo paixão futebolística e identidade local! ⚽

Patrícia resume com humor: “O não eu já tenho. Eu vou pra humilhação com certeza. Mas se não pedir, não acontece”.

Chope Colombina - Goiás

Consumidor goiano e a missão de educar o paladar

O público de cerveja especial em Goiás ainda é pequeno, mas vem crescendo. E a Colombina tem papel direto nesse movimento. A marca aposta em eventos gastronômicos, degustações em supermercados e ações de harmonização para mostrar que cerveja vai bem com salgado e com doce também.

Segundo Patrícia, o trabalho é lento e exige paciência. “Tem que botar o povo pra provar. Às vezes o goiano nunca comeu uma cagaita. A gente precisa explicar, mostrar, contextualizar”.

Ela destaca que grandes marcas como Patagônia e Lagunitas ajudaram a abrir caminho ao tornarem as cervejas especiais mais acessíveis. “Isso nunca me atrapalhou. Pelo contrário, educou o consumidor”, afirma.

Mesmo quando um concorrente entrou agressivo em Goiás com a cantora Marília Mendonça como garota-propaganda, o resultado foi positivo: “Minha venda triplicou. Eles colocaram outdoor na cidade, e todo mundo começou a olhar pra cerveja artesanal. O mercado cresceu junto”.

Cerveja com sotaque do Cerrado

Se há algo que diferencia a Colombina, é o orgulho de ser goiana até o último gole! Desde o início, Patrícia constrói um portfólio conectado ao território, valorizando ingredientes locais e o bioma do Cerrado.

A Session IPA da casa leva lúpulo cultivado no Cerrado, da variedade Comet, e fécula de mandioca proveniente de uma cooperativa familiar com 50 famílias a apenas 40 km da fábrica. “Isso é propósito. Isso é economia local girando com a gente”.

Outros rótulos exploram frutas e castanhas regionais como cagaita, jabuticaba, baunilha do Cerrado, baru e siriguela, transformando a biodiversidade goiana em identidade líquida.

E esse olhar para o local não é tendência recente. “A gente nasceu assim. Não é modinha. É DNA!”.

Inspirada pelo estilo belga Cantillon, Patrícia acredita no conceito de quilômetro zero: valorizar o que está perto, reduzir distâncias e criar produtos autênticos. Não por acaso, a Colombina é reconhecida nacionalmente pela originalidade e coerência entre discurso e prática.

Patrícia Mercês - Colombina

Crescer sem perder a essência

Com uma capacidade produtiva de 90 mil litros por mês, a Colombina se consolidou como uma das maiores microcervejarias do Centro-Oeste. Mas Patrícia mantém a sobriedade: “Tem muita gente maior. A gente é grande como marca, e isso é o que nos orgulha”.

Ela refuta a ideia de que o crescimento tira o caráter artesanal. “Existe uma vergonha em crescer. Como se craft tivesse que ser pequeno e pobre. Mas crescer é profissionalizar. E dá pra fazer isso mantendo a essência”.

Questionada sobre a tendência de cervejas premium em garrafas verdes, Patrícia foi pragmática: o movimento faz sentido para quem tem muito dinheiro em marketing. “Se for pra competir com Heineken e Stella, é preciso tempo e verba. E eu prefiro investir na diferenciação.

Para ela, o futuro está em consolidar o que já existe antes de expandir. “2025 foi o primeiro ano que eu não lancei nenhum produto. Tô melhorando os que eu tenho. Meu foco agora é consolidar”.

Fé, propósito e consolidação

A trajetória da Cervejaria Colombina reflete a maturidade do mercado craft brasileiro. Nascida da paixão de uma família goiana, moldada por crises e guiada pela fé e pela profissionalização, a marca tornou-se um símbolo de persistência e identidade regional.

Patrícia Mercês lidera com visão de negócio, mas sem abrir mão do coração. Sua história prova que é possível crescer mantendo autenticidade, profissionalizar sem perder alma e usar o terroir como diferencial competitivo.

“Tem que acreditar”, ela resume. “A panela é velha, mas é premiada”.

E é com esse espírito, isto é, o da crença no trabalho, na cultura e na cerveja feita com propósito, que a Colombina entra em 2026 consolidada como um dos grandes cases da cerveja artesanal brasileira. 🍻

Gabriel Gurian

Historiador, com Mestrado e Doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), meus estudos são pautados por bebidas e bebedores na história do Brasil, em diferentes períodos. Atualmente integro o projeto Comer História, desenvolvo pesquisa pós-doutoral na Universidade de São Paulo (USP), com foco no nascimento da cultura cervejeira brasileira no século XIX, e colaboro com o Surra de Lúpulo.

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