Dos estúdios da pint.network, Ludmyla Almeida, Henrique Boaventura e Gabriel Gurian se unem para mais um “Cada cerveja, uma história”. Neste episódio, perseguem uma curiosidade antiga: afinal, como se construiu a trajetória da Cervejaria Canoinhense? Aquela que por muito tempo foi lembrada como a microcervejaria mais antiga do Brasil ainda em atividade? Embora a história seja rica, descobre-se que ela também traz zonas nebulosas nos anos recentes. O que só deixa o enredo mais humano, contraditório e, portanto, mais interessante!
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Canoinhas, Contestado e a “capital da erva-mate”
Antes de falar de cerveja, é preciso colocar Canoinhas no mapa. A cidade fica no norte de Santa Catarina, na divisa com o Paraná; foi fundada em 1888 e virou município em 1911. Ao mesmo tempo, teve papel relevante na Guerra do Contestado (1912-1916), conflito ligado à expropriação de terras para a construção de ferrovia e marcado por um componente messiânico. Por causa do conflito, a própria cervejaria teria ficado com atividades interrompidas por cerca de quatro anos.
Canoinhas ainda se autodeclara a “capital mundial da erva-mate”, elemento que ajuda a explicar um detalhe central do começo da cervejaria: o nome Ouro Verde, referência direta ao “ouro” econômico regional.

Da Ouro Verde à Canoinhense: família Löeffler e a década de 1930
A história da cervejaria, do jeito como ela costuma ser contada, começa em 1908, quando foi fundada ali pelos sócios Pedro Werner e Otto Bachmann. Mais tarde, depois do Contestado, ela seria vendido para Luís Kassemoder, até que, em 1924, chegaram Otto e Ema Löeffler. Um casal de imigrantes alemães vindos da Baviera, que já eram cervejeiros e haviam passado por Corupá (SC), onde também atuavam no ramo. Segundo registros da imprensa catarinense décadas depois, teriam sido responsáveis pela “primeira cervejaria do estado” — informação citada, mas tratada com cautela no papo.
Então, ao se mudarem para Canoinhas com a família grande, eles compram a cervejaria local, que ainda se chamava Ouro Verde. Mais tarde, já na década de 1930, com o vai-e-vem do próprio nome da cidade, a família consolidou então a marca “Canoinhense”.
Curiosamente, Otto coloca o negócio no nome do filho Guilherme, embora o mais envolvido com o ofício fosse Rupprecht, que no futuro ficaria conhecido como “Seu Leffla”.
E há um ponto técnico importante: apesar da associação imediata da Baviera com cervejas lager, a Canoinhense manteve, por décadas, uma produção exclusiva de cervejas de alta fermentação — em parte porque isso exigia menor controle de temperatura e menos estrutura produtiva.
“Nó de Pinho”, Kulmbach e o mistério do dulçor
A cerveja mais emblemática da Canoinhense a Nó de Pinho. No rótulo, ela aparecia como “Kulmbach” (ou “tipo Kulmbacher”), o que Henrique interpreta como referência a Kulmbach, cidade bávara associada a cervejas escuras. Assim, a Nó de Pinho poderia lembrar uma Schwarzbier, só que a própria história complica essa hipótese.

Por um lado, a Nó de Pinho tinha 3,2% de álcool, algo que, na Alemanha, cairia mais no território de uma Schankbier, mais leve. Por outro lado, relatos de degustação em sites citados no episódio apontam muito dulçor e caramelo, o que a aproximaria de uma Malzbier. E isso fica ainda mais intrigante porque a Canoinhense também produzia uma Malzbier “assumidamente” doce. Portanto, o trio levanta duas possibilidades: ou havia intenção clara de oferecer no portfólio “uma escura seca e outra escura doce”, ou a fermentação e o processo não eram tão controlados e, assim, a diferença real poderia ser “doce” versus “muito doce”.
Além disso, aparece um detalhe revelador: em tentativas de decupar receita, menciona-se um procedimento inicial de fermentar um mosto de cevada com açúcar, o que pode alterar percepção e resultado, mesmo sem “explicar” tudo sozinho.
E a origem do nome “Nó de Pinho” é puro folclore de fábrica: o combustível da caldeira vinha do miolo de troncos de araucária (nós de pinho) e, como clientes achavam que aquilo era ingrediente da cerveja, a piada virou rótulo. Ainda assim, foi um sucesso e permaneceu em produção por praticamente toda a trajetória.
Getúlio Vargas, guerra, lúpulo velho e um incêndio em 1943
A década de 1930 não foi só produção: Getúlio Vargas, na insurgência contra o então presidente-eleito Júlio Prestes, passou em 1930 com suas tropas gaúchas por Canoinhas rumo a São Paulo. Nesse período, soldados iam à cervejaria, bebiam à beça, “pagavam” com vales do governo e nunca acertavam a conta. E, embora a história venha pela memória do “Seu Leffla”, há registros de postura semelhante dos mesmos grupos em outros locais da cidade.
Já nos anos 1940, o cenário piora. Durante a Segunda Guerra, falar alemão em público podia gerar prisão; então, como o cervejeiro era amigo do delegado, resolveu-se com uma “salinha anexa” na Canoinhense para que os germânicos evitassem problemas. Ao mesmo tempo, por causa do conflito, a importação de lúpulo foi afetada, o que levou o pai de Rupprecht a, de antemão, orientar o estoque lúpulo em grande quantidade. Só que isso abre um comentário ácido: quanto lúpulo envelhecido (e mal armazenado) acabou indo parar em cerveja?
E então vem o fogo literal: em 15 de maio de 1943, um incêndio destruiu parcialmente o estabelecimento, com prejuízos elevados, possivelmente por negligência de alguém que abandonou seu posto durante o turno da noite enquanto processos de produção estavam em curso. 🔥

Prestígio local, regulação e o peso do “sempre foi assim”
Na segunda metade do século XX, a Canoinhense virou ícone municipal, apareceu em anúncios e expandiu o portfólio além da cerveja. Em 1963, por exemplo, participou da 1ª Festa da Cerveja de Canoinhas, promovida pelo Grêmio XV de Julho para arrecadar fundos para um ginásio de esportes. Assim, ela se integrou com a vida social “classe média alta” e construiu a imagem de ser o negócio de uma família ilustre.
Contudo, o grande atrito apareceu na regulação: “Seu Leffla” dizia ter operado “clandestinamente” entre 1975 e 1983 por suposta proibição nacional contra microcervejarias. Estariam por trás disso as grandes marcas.
No episódio, porém, o argumento é corrigido: o período marca endurecimento de fiscalização e exigências sanitárias e tecnológicas, especialmente com a Lei 5.823/1972, que exige registro, classificação, controle, inspeção e fiscalização do setor de bebidas. Ou seja, não era uma “proibição às microcervejarias”, mas sim um ambiente que dificultava para os pequenos. E Löeffler preferiu não se adequar, romantizando a transgressão.
Depois, nos anos 1990, surgiu um quase-crowdfunding: um conselho municipal sugere a criação de uma “escolinha de cervejeiros” e um projeto de ampliação com capital da comunidade, mantendo os Löeffler majoritários. Ainda assim, nada foi adiante. Ele então produzia cerca de 1.000 garrafas por semana, embora tivesse capacidade para chegar a 4.500, e era o que mais lhe interessava com essas propostas do conselho.

Século XXI: homenagens, ações do MAPA e um futuro incerto
No século XXI, a Canoinhense se consolidou como parte tradicional da história de Canoinhas. Local de memória municipal, de forte apelo para a comunidade descendente de imigrantes germânicos e marcada pela sua preservação cultural, representada pelos rótulos feitos “como antigamente”. Houve homenagens na Câmara, selo dos Correios com a foto do mestre cervejeiro e a realização do curta Cerveja Falada (2010), no qual Löeffler solta uma frase emblemática: “Nós se acabamos e a imbuia fica” — assista ao final do texto e entenda. Ao mesmo tempo, a cervejaria era também um retrato dos hábitos de outrora — como a caça de animais silvestres, por sua coleção de animais empalhados — e da resistência a mudanças.
Rupprecht faleceu em 2011, aos 93 anos, após décadas à frente do negócio. Sua esposa, Gerda, com quem foi casado por quase 66 anos, seguiu na gestão e, mais tarde, também enfrentou problemas: em 2016, fiscais do MAPA exigiram adequações por falta de higiene, o que dificultou a operação por um tempo.
Em 2018, ela ainda afirmou que “tudo continua como antes”, reforçando a narrativa de tradição. Mas, justamente por isso, o episódio sugere que o apego ao passado pode ter dificultado a sobrevivência da Canoinhense no presente. Gerda morreu em 2023, aos 91 anos.
E o desfecho recente é incerto: a partir de relatos encontrados em uma thread do Reddit (tratados como indícios, não como prova), fala-se em novo fechamento, novos problemas com fiscalização e até possível venda do prédio que por mais de um século sediou a cervejaria.

Portfólio: pequeno e folclórico
Além da Nó de Pinho, o portfólio citado inclui uma Malzbier (a escura doce), a Mocinha (clara e doce, listada como American Amber Ale em alguns registros), a Jahú (clara e seca, listada como Blonde Ale) e uma curiosa Bock Porter; antigamente, sabe-se de já terem produzido bitters e até refrigerantes. Em outras palavras, era um conjunto enxuto, local e marcado mais por tradição e hábito do que por atualização técnica.

A imbuia fica: o que pode sobreviver quando a fábrica não sobrevive
No fim, a história da Cervejaria Canoinhense é emblemática! Porque mostra um Brasil cervejeiro que existia antes do boom dos anos 2000. Mostra um fazer antigo, artesanal “na prática”, mas nem sempre alinhado com as exigências sanitárias das autoridades.
Ainda assim, o legado extrapola a cerveja. 05 de junho, aniversário de Rupprecht Löeffler, “o mestre cervejeiro mais antigo em atividade” no Brasil, até o seu falecimento, foi escolhido por grupos locais e pela própria cidade como Dia da Cerveja Brasileira. Além disso, existe o PL 3.520/2024, na Câmara dos Deputados em Brasília (DF), propondo a primeira sexta-feira de junho, em referência ao “Seu Leffla”, como data comemorativa nacional. Contudo, até onde o episódio alcança, o projeto parece estar travado, sem avanço claro.
Portanto, se a Canoinhense não continuar como operação, fica a torcida que o espaço siga vivo de algum modo. Como museu, centro de memória, pesquisa, arquivo, visitação. Porque, no fim das contas, a frase do velho cervejeiro diz tudo: a gente passa, e o que vale é o que consegue permanecer, da imbuia ao legado. 🍺