No segundo episódio do ano, o Surra de Lúpulo resolveu sair do copo e entrar de cabeça na xícara. Ludmyla Almeida e Henrique Boaventura receberam a barista, bartender e especialista em bebidas Mari Mesquita, para falar de café. Mas, como era de se esperar, o papo virou também sobre consumo, cultura e o que acontece quando uma bebida deixa de ser “só” bebida.
E, de cara, já ficou claro o contraste: Henrique conta que, até pouco tempo atrás, seu café era solúvel e de massa. Ainda assim, foi justamente essa “virada de chave” que abriu espaço para a conversa sobre cafés especiais como experiência, e não apenas como dose diária de cafeína.
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O consumo mudou, e o café entrou na engrenagem
Se antes a cerveja era o centro do rolê, agora ela é uma peça dentro de algo maior. Por isso, Ludmyla puxa exemplos que mostram como eventos e plataformas viraram ecossistemas de bebidas. O Great American Beer Festival passou a incluir destilados, drinks prontos e gastronomia. Além disso, o Untappd deixou de ser “só sobre cerveja”, permitindo registrar qualquer coisa (até água!). Da mesma forma, o Mondial de la Bière, na edição de 2025, chegou repaginado, com música e comida dividindo a atenção com as cervejas protagonistas.
Assim, o Surra quer entender “o que está rolando” também no mercado de cafés especiais. Porque, no fim, as ocasiões, os critérios, as preferências, as cadeias e tantas outras coisas mudaram.

Quem é Mari Mesquita e por que ela conecta bebidas
Mari se apresenta como barista há dez anos e, ao mesmo tempo, como alguém que expandiu para outras frentes. Nos últimos sete anos, ela também trabalhou com sensorial, prova de destilados, curso de produção de vermutes e treinamento de equipes para café. Tudo orbitando a ideia de hospitalidade e produto.
Ou seja, ela não vê essas bebidas como “mundos separados”; pelo contrário, ela enxerga tudo “na mesma mesa”, com técnicas e linguagens que se cruzam.

Café é ritual, mas também é “doping legalizado”
Henrique provoca: café é mais sobre ritual ou sobre efeito? E aí Mari responde com uma imagem ótima: o café tem um comportamento dual, tipo partícula-onda.
Ele pode ser um psicotrópico poderoso que ajuda a ficar acordado e socializar; ao mesmo tempo, ele também pode virar um ritual de presença, atenção e etapas. Você pode comprar o café já moído, simples e rápido. Por outro lado, você pode escolher moedor, mineralidade da água, método de preparo e até o meio filtrante para realçar acidez, frutado e outras notas.
Além disso, Mari faz uma diferença importante em relação à cerveja: para a maior parte das pessoas, a “transformação técnica” na cerveja é curta (servir e pronto). Já no café, dá para modular receita e resultado com muito mais controle no dia a dia. Embora, claro, exista também o universo da cerveja caseira, que ela brinca recomendando “um outro podcast maravilhoso” do guarda-chuva do Surra: o Brassagem Forte.

Do campo à torra: por que café especial custa mais e muda tanto
Quando o tema vira “especial”, Mari crava: café especial custa mais caro porque custa mais caro para produzir, e também dá mais trabalho para ficar gostoso. E aqui entra um ponto-chave: ele é consumido porque dá prazer, é hedonista, foi feito para ser gostoso, assim como a cerveja especial tenta fugir do papel de “encher a cara”.
Então Mari descreve, com detalhes, a cadeia do café especial. Em grande medida, ele nasce de agricultura familiar e escala pequena: produtores com alguns hectares plantam mudas de café “arábica” ou “canéfora” (robusta/conilon), esperam cerca de três anos até a primeira produção e, depois, colhem o fruto maduro. A partir daí, entram as escolhas de processamento: por exemplo, secar o café com casca e polpa é o método natural (via seca), com secagem em terreiro e cuidado para não mofar. Depois, o café é limpo, ensacado e enviado como amostra para a torrefação, onde um mestre de torra testa em um torrador de amostra (tipo “pipoqueira”), e a torra passa por reações como a de Maillard — a mesma “família” de processo que, na cerveja, ajuda a construir notas de caramelo no malte.

Além disso, Mari ressalta: café cru não tem “gosto de café” como a gente conhece; ele lembra cereal, vegetal, palha. É na torra que nasce o sabor. E, depois de torrado e embalado, a janela é curta: há pacotes orientando consumir em torno de 40 dias (ou um a dois meses, no máximo), porque café envelhece e envelhece mal. Por isso, a safra importa, e a finitude é real: algumas coisas não voltam, e a memória sensorial vira quase um caderno de anotações interno.
Coquetelaria, campeonato e o café como ingrediente de verdade
O café também ganhou destaque na coquetelaria. Antes, muita gente buscava por licores doces e amargos, havendo negligência, desatenção ou pouca disponibilidade de produtos de ou à base de café. Hoje, busca-se café bom para bons coquetéis.
Mari cita o Irish Coffee (inventado no meio da Segunda Guerra Mundial e difícil de vender no Brasil, por ser servido quente), o Carajillo, o Espresso Martini e o White Russian, que ficou famoso por causa do filme The Big Lebowski (1998).
Além disso, existe um campeonato anual chamado Coffee in Good Spirits, em que competidores criam coquetéis autorais com café em destaque e precisam justificar por que aquele café funciona naquela composição. Nesse ambiente, a curadoria do café vale muitos pontos, e há equipamento profissional disponível, algo que bares geralmente não conseguem ter por logística e custo.

Um convite mais aberto (e mais transparente)
Talvez a parte mais provocativa do episódio seja a crítica ao discurso “não convidativo” do café especial. Mari diz que, muitas vezes, a narrativa vira distinção e exclusividade, afastando quem poderia entrar pelo prazer e pela justiça da cadeia produtiva.
Ainda assim, ela não demoniza termos como “democratizar”: para ela, democracia passa pela transparência. Por exemplo, abrir uma “planilha” que explique custo de produção, especulação, bolsa, insumos e negociações. Caso contrário, baratear sem explicar tende a significar alguém ganhando menos do que deveria.
O tom é o de justiça com os valores da cadeia produtiva, sobretudo para os que nela trabalham, sem cultuar um esnobismo no meio de produtores e consumidores de cafés especiais.

O Bloco do Catuaí vai sair na rua 🎊
No fim, vem a novidade: nasce um podcast de café dentro da “podosfera” do Surra, chamado Bloco do Catuaí, apresentado por Mari Mesquita. A estreia está marcada para 18 de fevereiro de 2026, Quarta-Feira de Cinzas, como um desjejum especial pós-Carnaval para recuperar as energias.
E, se a cerveja hoje divide o trono com outras bebidas, então faz todo sentido: o Surra só está acompanhando o mundo real, com mais nuance, mais sabor e, principalmente, mais história por trás da xícara! ☕